Dhammapada

Versos do Dhamma

1. Yamakavagga: Versos Gêmeos

Todas as ações são comandadas pela mente:
a mente é o senhor delas, a mente é quem as fabrica.
Aja ou fale com um estado mental corrompido
que o sofrimento virá em seguida da mesma forma
como a roda da carroça segue as pegadas do boi.

Todas as ações são comandadas pela mente:
a mente é o senhor delas, a mente é quem as fabrica.
Aja ou fale com um estado mental claro com serena confiança
que a felicidade virá em seguida da mesma forma
que a sombra acompanha o seu objeto por toda a parte, sem nunca abandoná-lo.

Quem abriga pensamentos de hostilidade como:
Ele me maltratou, ele me golpeou,
ele me derrotou, ele me roubou—
para aqueles que abrigam pensamentos como esses
a raiva nunca será apaziguada.

Quem não abriga pensamentos de hostilidade como:
Ele me maltratou, ele me golpeou,
ele me derrotou, ele me roubou,—
para aqueles que não abrigam pensamentos como esses
a raiva será apaziguada.

Pois neste mundo a raiva
nunca é apaziguada com outras ações enraivecidas,
Ela é apaziguada pela não-raiva,
essa é uma lei imutável e atemporal.

Há os que não percebem
que nós teremos um fim nesse mundo,
mas aqueles que percebem isso,
têm suas desavenças apaziguadas.

Quem apenas a beleza contempla,
com os sentidos descontrolados,
que não sabe o que é moderação ao comer,
lânguido, indolente:
esse será subjugado por Mara,
como o vento que derruba uma árvore fraca.

Quem o repulsivo contempla,
com os sentidos bem controlados,
que sabe o que é moderação ao comer,
convicto, diligente:
esse não será subjugado por Mara,
como o vento que não abala um rochedo.

Aquele que veste o manto dos bhikkhus,
mas que ainda não é livre das impurezas,
imoderado e desonesto,
ele não é digno do manto dos bhikkhus.

Mas aquele que se purificou das impurezas,
firmemente estabelecido na conduta virtuosa,
moderado e honesto,
ele é digno do manto dos bhikkhus.

Aqueles que dão importância àquilo que não é importante
e que não dão importância àquilo que é importante,
sustentando pensamentos errôneos,
eles nunca alcançarão aquilo que é importante.

Aqueles que dão importância àquilo que é importante,
e que não dão importância àquilo que não é importante,
sustentando pensamentos corretos,
eles alcançarão aquilo que é importante.

Tal como a chuva penetra
em uma casa mal coberta,
a cobiça penetra
numa mente mal cultivada.

Tal como a chuva nunca penetra
em uma casa bem coberta,
a cobiça nunca penetra
numa mente bem cultivada.

Aqui ele se aflige e no futuro se afligirá,
de ambos os modos o malfeitor se aflige;
Ele se aflige e sofre,
ao ver suas próprias ações prejudiciais.

Aqui ele se alegra, e no futuro se alegrará,
de ambas as formas o benfeitor se alegra;
Ele se alegra e se rejubila,
ao ver suas próprias ações benéficas.

Aqui ele sofre e no futuro sofrerá,
de ambas as formas o malfeitor sofre;
"Eu fiz o mal", com o remorso ele sofre,
e sofre ainda mais quando passa para os mundos inferiores.

Aqui ele fica contente e no futuro ficará contente
de ambas as formas o benfeitor fica contente;
"Eu fiz o bem", com serenidade ele fica contente,
e fica ainda mais contente quando passa para os mundos felizes.

Embora alguém recite muitos dos ensinamentos,
o homem negligente que não pratica,
é como um vaqueiro contando as vacas de outros,
ele não se beneficia da vida santa.

Embora alguém recite poucos dos ensinamentos,
mas coloque em prática o Dhamma,
que tenha abandonado a delusão, cobiça e raiva,
dotado de perfeita sabedoria, com a mente liberta,
não se apegando a nada desse mundo ou do próximo,
ele, de fato, se beneficia da vida santa.

2. Appamadavagga: Diligência

A diligência é o caminho para o Imortal,
a negligência é o caminho para a morte.
Os diligentes não morrem,
os negligentes já estão mortos.

O sábio então, reconhecendo
essa excelência da diligência,
fica contente de estar entre os Nobres,
e na diligência se rejubila.

Os sábios, sempre absortos em jhana,
perseverando, firmes no seu esforço:
eles experimentam Nibbana,
a libertação incomparável dos grilhões.

Perseverante e plenamente atento,
praticando ações benéficas, considerado,
moderado, vivendo diligente com o Dhamma,
de tal pessoa se espalha uma boa reputação.

Com energia e diligência,
com domínio e autocontrole,
façam os sábios uma ilha
que as enchentes não possam inundar.

Os tolos e ignorantes
se entregam à negligência,
mas os sábios preservam a diligência
como o seu maior tesouro.

Não se entregue à negligência!
Não se entregue aos prazeres sensuais!
Porque uma pessoa diligente e absorta nos jhanas
alcança êxtase abundante.

Quando um sábio afasta
a negligência através da diligência,
tendo ascendido à torre da sabedoria,
inabalável e sem aflição,
ele examina os tolos, observa o povo se afligindo,
tal como um montês observa aqueles na planície.

Entre os negligentes, diligente,
entre os adormecidos, bem desperto.
Tal como um corcel deixa para trás um pangaré,
o sábio avança rapidamente.

A diligência é sempre elogiada,
a negligência sempre censurada.
Pela diligência Sakka se tornou
o rei dos devas.

O bhikkhu que se deleita na diligência,
que teme a negligência,
avança como um incêndio,
queimando pequenos e grandes grilhões.

O bhikkhu que se deleita na diligência,
que teme a negligência,
jamais decairá,
ele está próximo de Nibbana.

3. Cittavagga: Mente

Esta mente agitada, vacilante,
difícil de vigiar e controlar,
o sábio endireitará,
tal como o flecheiro faz com as flechas.

Tal como um peixe tirado da água
e jogado na terra,
esta mente se debate
enquanto está abandonando o reino de Mara.

A mente é difícil de ser controlada,
é sempre veloz, ela se inclina àquilo que deseja.
É bom o treinamento da mente,
uma mente bem domada traz felicidade.

A mente é muito difícil de ser examinada,
é muito sutil, ela se inclina àquilo que deseja.
O sábio deve vigiar a mente,
pois uma mente vigiada traz felicidade.

Indo longe, perambulando só,
sem forma e repousando numa caverna.
Aqueles que contêm a mente
com certeza se libertarão dos grilhões de Mara.

Uma pessoa com a mente instável,
que não compreende o verdadeiro Dhamma,
que tem convicção hesitante:
a sabedoria não chega à sua plenitude.

Alguém que tem uma mente não inundada (pela cobiça),
uma mente que não é abalada pelo ódio,
que abandonou o mal, e o bem também,
um Desperto, para ele não há medo.

Percebendo que esse corpo é como um pote de barro,
fortalecendo essa mente tal como uma cidade fortificada,
combata Mara com a arma da sabedoria,
enquanto, sem apegos, proteja aquilo que já foi conquistado.

Ah! Não demorará muito e este corpo
repousará sobre a terra.
Descartado, sem consciência,
inútil como um tronco podre.

Qualquer dano que um inimigo faça a um inimigo,
ou aquele que odeia ao odiado,
a mente direcionada de forma inábil deveras
poderá causar a uma pessoa o maior dano.

Aquilo que nem uma mãe, tampouco um pai,
nem qualquer outro ente querido pode fazer,
a mente direcionada de forma hábil deveras
poderá causar a uma pessoa o maior benefício.

4. Pupphavagga: Flores

Quem irá compreender este mundo,
o mundo de Yama, e o mundo dos devas?
Quem irá examinar profundamente o bem exposto Dhamma
assim como quem é habilidoso escolhe uma flor?

Um nobre aprendiz vai compreender este mundo,
o mundo de Yama e o mundo dos devas,
Um nobre aprendiz irá examinar profundamente o bem exposto Dhamma
assim como quem é habilidoso escolhe uma flor.

Conhecendo este corpo como espuma,
despertando para sua natureza quimérica,
destruindo as flechas floridas de Mara,
vá para além da visão do Rei da Morte.

Com a mente apegada aos prazeres sensuais,
colhendo apenas as flores do prazer,
de surpresa a morte o pegará e o arrastará,
tal como uma grande enchente faz com um vilarejo adormecido.

Com os desejos insaciáveis,
colhendo apenas as flores do prazer,
com uma mente que se apega aos prazeres sensuais,
será subjugado pelo Senhor da Morte.

Assim como uma abelha numa flor,
sem ferir a cor ou o aroma,
coleta o néctar e vai embora,
assim, nos vilarejos, perambula o sábio.

Não procure os defeitos nos outros,
nem o que eles fizeram ou deixaram de fazer,
mas em você mesmo examine
coisas feitas e coisas que deixou de fazer.

Assim como uma magnífica flor,
com cores radiantes, mas sem fragrância,
infrutíferas são as belas palavras
daquele que não as coloca em prática.

Assim como uma magnífica flor,
com cores radiantes e com fragrância,
frutíferas são as belas palavras
daquele que as coloca em prática.

Tal como de uma massa de flores,
muitas grinaldas podem ser feitas,
alguém nascido como humano
deveria fazer muitas ações benéficas.

A fragrância de nenhuma flor vai contra o vento,
mesmo a do sândalo, do jasmim ou da lavanda.
Mas a fragrância dos virtuosos vai contra o vento.
A virtude dos bons permeia todas as direções.

Sândalo ou lavanda,
lótus ou jasmim,
de todas essas muitas fragrâncias,
a fragrância da virtude é suprema.

Fraca é esta fragrância
de lavanda e sândalo,
mas a fragrância dos virtuosos,
remonta sublime até o mundo dos devas.

Aqueles com perfeita virtude,
que permanecem diligentes,
libertos através do Conhecimento Supremo:
Mara não é capaz de encontrar os seus rastros.

Na beira de uma estrada,
numa fossa onde é jogado lixo
ali floresce uma flor de lótus
perfumada e agradável …

… similarmente, em meio à escória dos seres,
entre os cegos mundanos,
o discípulo do Supremo Desperto
resplandece em sabedoria.

5. Balavagga: Tolos

Longa é a noite para o insone,
longa é a légua para o cansado,
longo é o samsara para os tolos,
que não conhecem o verdadeiro Dhamma.

Se alguém não conseguir encontrar
uma companhia melhor ou igual,
então ele deveria, com determinação, seguir sozinho.
Não há companheirismo com os tolos.

“Eu tenho filhos, eu tenho riquezas”,
pensando assim, o tolo se preocupa.
Se nem ele é dele mesmo,
como seriam dele filhos e riquezas?

Consciente da sua própria tolice,
o tolo por isso é sábio.
Enquanto que o tolo, de fato tolo,
é o sábio presumido.

Mesmo que por toda uma vida, o tolo
conviva com um sábio,
ele nunca compreenderá o Dhamma
tal como a colher não sente o sabor da sopa.

Mesmo que por um breve momento, o perspicaz
conviva com um sábio,
ele rapidamente compreenderá o Dhamma
tal como a língua sente o sabor da sopa.

Tolos de pouca sabedoria
são inimigos de si próprios,
já que vivem praticando ações prejudiciais,
que trarão frutos amargos.

Não é bem feita a ação
da qual há remorso,
cujos resultados são sentidos
com o choro e o rosto marcado pelas lágrimas.

Mas é bem feita a ação
da qual não há remorso,
cujos resultados são sentidos
com alegria e felicidade.

Quando a ação prejudicial ainda não frutificou
o tolo pensa que ela é doce como o mel,
mas quando ela frutificar,
o tolo irá sofrer.

Mês após mês, com a ponta do capim
o tolo ingere o seu alimento;
Ele não vale um dezesseis avos
daqueles que compreendem o Dhamma.

Igual ao leite, é a ação prejudicial,
que tão lentamente azeda.
Mas latente permanece no tolo,
como as brasas cobertas por cinzas.

Deveras em seu detrimento
o tolo obtém conhecimentos;
o seu bom caráter arruinado
as suas boas qualidades destruídas.

Proeminência um tolo pode desejar:
precedência entre os bhikkhus,
autoridade nos monastérios
e honras de outras famílias.

Que os leigos e bhikkhus pensem
'Isso foi feito por mim,
em todas tarefas, grandes ou pequenas,
que eles sempre dependam de mim.'
Essa é a intenção do tolo;
inchadas a sua cobiça e presunção.

Uma é a busca pelo ganho mundano,
outra o caminho que leva a Nibbana.
Claramente compreendendo isto,
o bhikkhu, discípulo do Buda,
não se lambuza com as oferendas recebidas,
entregando-se, ao invés disso, ao afastamento.

6. Panditavagga: Sábios

Considere-o como um guia
que mostra o caminho para um tesouro,
o sábio que vendo os seus defeitos lhe censura.
Permaneça com tal sábio,
pois para aquele que permanece com tal sábio,
as coisas melhoram, não pioram.

Que ele aconselhe, que ele alerte,
e o proteja de praticar ações prejudiciais.
Pelos virtuosos ele é bem visto,
pelos não virtuosos, não é.

Não se associe com amigos prejudiciais;
não se associe com pessoas não virtuosas.
associe-se com amigos admiráveis;
associe-se com as pessoas verdadeiras.

Quem bebe o Dhamma vive feliz,
com o coração puro e claro.
Quem é sábio sempre se deleita
no Dhamma proclamado pelos Nobres.

Irrigadores governam as águas;
flecheiros modelam as flechas;
carpinteiros modelam a madeira;
os sábios dominam a si mesmos.

Tal como um rochedo sólido
não se abala com o vento,
diante do elogio ou da crítica
os sábios nunca se movem.

Tal como um lago profundo,
um lago tão claro e tranquilo,
ouvindo o Dhamma,
serenos, se tornam os sábios.

A tudo os Nobres renunciam.
Em paz, sem tagarelar em busca da sensualidade.
Sejam tocados pela alegria ou pela tristeza,
os sábios não demonstram nenhuma oscilação.

Nem para si mesmo, nem para os outros,
deve-se desejar filhos, tesouros, reinos,
ou sucessos obtidos por meios incorretos.
Agindo assim tal pessoa será virtuosa, sábia e íntegra.

Poucos são os seres humanos
que cruzam até a outra margem.
O resto, a massa dos seres,
apenas correm para cá e para lá nesta margem.

Mas aqueles que praticam o Dhamma
de acordo com o Dhamma perfeitamente ensinado,
esses irão cruzar o Reino da Morte
tão difícil de cruzar.

Abandonando os dhammas escuros
que o sábio cultive os luminosos,
que ele abandone a vida em família pela vida santa,
um afastamento tão difícil de apreciar.

Que eles desejem esse raro deleite,
renunciando aos prazeres sensuais, não possuindo nada.
Que esses sábios se purifiquem
de todas as impurezas da mente.

Iluminados, com os fatores da iluminação
completamente desenvolvidos,
deleite, sem apego por nada,
renúncia:
sem impurezas, radiantes,
neste mundo realizaram Nibbana.

7. Arahantavagga: Arahants

Com a jornada terminada e livre de lamentações,
completamente libertos de todas as coisas,
naqueles que destruíram todos os grilhões
o fogo das paixões não é encontrado.

Eles seguem com atenção plena,
não se deleitando com nenhuma morada,
assim como cisnes abandonando seu lago,
lar após lar eles deixam para trás.

Aqueles que não acumulam,
com a completa compreensão do alimento,
sua permanência é a libertação
no vazio e sem sinais.
Tal como pássaros atravessando o espaço,
cujo rastro é difícil de traçar.

Para aqueles cujas impurezas foram destruídas,
com a completa compreensão do alimento,
sua permanência é a libertação
no vazio e sem sinais.
Tal como pássaros atravessando o espaço,
cujo rastro é difícil de traçar.

Aqueles com os sentidos pacificados,
tal como um corcel bem domado pelo treinador,
com o orgulho abandonado, livres das impurezas,
mesmo os devas os apreciam.

Como a terra, sem ressentimentos;
como um Pilar de Indra, firme;
como um lago livre de lodo, puro;
não existe o samsara para alguém que é assim.

Pacíficos são seus pensamentos,
pacíficas as suas palavras e as suas ações também,
liberto pelo conhecimento Supremo,
alguém assim realizou a paz suprema.

Sem crenças, conhecendo Nibbana,
com as amarras finalmente cortadas,
que destruiu todas as causas e abandonou todos os desejos,
alguém assim é verdadeiramente Nobre.

Seja nas cidades ou na floresta,
nos vales, ou nas colinas.
Onde quer que permaneçam os Arahants
o local é extremamente encantador.

Encantadoras são as florestas,
onde as pessoas não se deleitam.
Mas aqueles Livres das Paixões ali se deleitam,
porque eles não buscam os prazeres sensuais.

8. Sahassavagga: Milhares

Melhor do que mil palavras
insignificantes,
é uma palavra com significado,
ao ouvi-la se obtém a paz.

Melhor do que mil versos
insignificantes,
é um único verso com significado,
ao ouvi-lo se obtém a paz.

Melhor do que recitar centenas de versos
insignificantes,
é recitar um único verso do Dhammma,
ao ouvi-lo se obtém a paz.

Embora mil vezes mil homens,
possa alguém em batalhas conquistar,
ainda assim, maior conquistador é
aquele que conquista a si mesmo.

Nobre é a conquista de si mesmo,
subjugar os outros não é nobre,
aquele que domou a si mesmo,
que vive sempre com a conduta contida,

…Nem deva, nem gandhabba,
nem Mara junto com Brahma,
podem arruinar o triunfo
de alguém assim.

Mês a mês, por uma centena de anos,
alguém pode fazer milhares de sacrifícios,
mas se apenas por um único momento,
ele homenagear os que purificaram as suas mentes,
tal homenagem seria muito melhor
do que um século de sacrifícios.

Por uma centena de anos alguém pode se prostrar
ao fogo sagrado na floresta,
mas se apenas por um único momento,
ele homenagear os que purificaram as suas mentes,
tal homenagem seria muito melhor
do que um século de sacrifícios.

Quaisquer donativos ou oblações que alguém,
buscando méritos, ofereça por todo um ano,
tudo isso não equivale nem a um quarto
de homenagear os homens retos (arahants).

Alguém com natureza respeitosa,
que sempre honra e serve os anciãos,
quatro qualidades aumentam:
vida longa e beleza, felicidade e força.

Embora viva cem anos
tolo, descontrolado,
melhor viver apenas um dia,
virtuoso, absorto em jhana.

Embora viva cem anos
tolo, descontrolado,
melhor viver apenas um dia,
sábio, absorto em jhana.

Embora viva cem anos
preguiçoso, sem esforço,
melhor viver apenas um dia,
com plena energia.

Embora viva cem anos
sem ver o surgir e cessar dos fenômenos,
melhor viver apenas um dia,
vendo o surgir e cessar dos fenômenos.

Embora viva cem anos
sem ver o Imortal,
melhor viver apenas um dia,
vendo o Imortal.

Embora viva cem anos
sem ver o Supremo Dhamma,
melhor viver apenas um dia
vendo o Supremo Dhamma.

9. Papavagga: O Mal

Apresse em praticar o bem
e proteja sua mente do mal.
Para aquele que hesita em fazer o bem
sua mente se deleita com o mal.

Se alguém praticar algum mal
que não o faça vez após vez.
Que nisso não encontre deleite:
sofrimento é acumulá-lo.

Se alguém praticar algum bem
que ele o faça vez após vez.
Que nisso encontre deleite:
felicidade é acumulá-lo.

Enquanto o mal não amadurece
os malfeitores podem ser bem afortunados,
mas quando o mal amadurecer
o malfeitor verá maus resultados.

Enquanto o bem não amadurece
os benfeitores podem ser desafortunados,
mas quando o bem amadurecer
o benfeitor verá bons resultados.

Não subestime o mal pensando:
"Ele não irá me atingir".
Pois tal como gota a gota
se enche um pote,
também o tolo se enche do mal
pouco a pouco acumulado.

Não subestime o bem pensando:
"Ele não irá me beneficiar".
Pois tal como gota a gota
se enche um pote,
também o sábio se enche do bem
pouco a pouco acumulado.

Tal como um rico comerciante com pequena caravana
evita um caminho perigoso,
igual a um homem que ama a vida evita o veneno,
deve-se evitar todo mal.

Se na mão não há ferida
até mesmo veneno pode levar.
O veneno não afeta alguém sem feridas,
tal como o mal não afeta aqueles que não o praticam.

Aquele que é rude com os puros,
imaculados e livres das impurezas,
sobre esse tolo o mal se volta
tal como poeira fina atirada contra o vento.

Alguns nascem no ventre,
malvados no inferno,
aqueles no bom caminho vão para o paraíso,
enquanto que aqueles sem impurezas: Nibbana.

Nem no céu, nem no meio do oceano,
nem habitando uma caverna numa montanha,
não há nenhum lugar nesse mundo
onde alguém possa permanecer e escapar de suas ações prejudiciais.

Nem no céu, nem no meio do oceano,
nem habitando uma caverna numa montanha,
não há nenhum lugar nesse mundo
onde alguém possa permanecer e não ser subjugado pela morte.

10. Dandavagga: Punição

Todos tremem diante da punição,
todos temem a morte.
Colocando-se no lugar dos outros,
não mate, nem faça com que os outros matem.

Todos tremem diante da punição,
a vida é preciosa para todos.
Colocando-se no lugar dos outros,
não mate, nem faça com que os outros matem.

Quem pune ferindo
aqueles que buscam a felicidade,
ele mesmo buscando a felicidade,
não encontrará felicidade após a morte.

Quem não pune ferindo
aqueles que buscam a felicidade,
ele mesmo buscando a felicidade,
encontrará felicidade após a morte.

Não use a linguagem grosseira com ninguém,
tratados dessa forma eles podem revidar.
Sofrimento de fato é a linguagem raivosa,
a retaliação pode lhe ferir.

Se como um gongo quebrado,
você permanecer em silêncio,
despojado do bate-boca,
você já realizou Nibbana

Assim como um vaqueiro punindo
conduz o seu gado para pastar,
o envelhecimento e a morte expulsam
a vida de todos os seres vivos.

Quando o tolo pratica ações prejudiciais
ele desconhece seus frutos,
e devido a essas ações o tolo sofre
como se fosse queimado pelo fogo.

Quem pune os inimputáveis,
ou ofende os benévolos,
bem depressa cairá
em uma destas dez situações:

Experimentar dores agudas,
ou ferimentos no corpo,
ou doenças graves,
ou loucura;

problemas com o governo,
ou falsa acusação,
ou perda de parentes,
ou perda da riqueza;

ou sua casa queima
em um grande incêndio,
após a dissolução do corpo,
no inferno tal tolo renascerá.

Nem andar nu, nem ter cabelos emaranhados, nem sujeira,
nem jejum, nem dormir no chão,
nenhuma penitência sobre os calcanhares, nem se cobrir com cinzas e sujeira,
podem purificar um mortal ainda dominado pela dúvida.

Mesmo que bem vestido, permanecendo em paz,
calmo, contido e estabelecido na vida santa,
abandonando a violência contra todos os seres:
ele de fato é um brâmane, um contemplativo, um bhikkhu.

Onde nesse mundo é encontrado
alguém que é contido pela vergonha de cometer transgressões,
que teme a reprovação,
tal como um cavalo puro-sangue o chicote?

Como um cavalo puro-sangue tocado pelo chicote,
seja ardente, tomado pela urgência espiritual,
pela fé, virtude e esforço também,
pela concentração, pela investigação dos fenômenos,
com atenção plena, consumado no verdadeiro conhecimento e conduta:
liberte-se dessa grande massa de sofrimento

Irrigadores governam as águas;
flecheiros modelam as flechas;
carpinteiros modelam a madeira;
os de boa conduta dominam a si mesmos.

11. Jaravagga: Velhice

Por que o riso, por que a alegria,
quando tudo está em chamas?
Envelopado na escuridão
por que não buscar pela luz?

Observe este corpo
apreciado por muitos, maquiado com encanto.
Neste corpo nada é estável, nada é duradouro,
de fato é um aglomerado de feridas
escorado por muitos ossos
afligido pelas enfermidades.

Este corpo é frágil, se desintegra com facilidade.
Deveras um antro de enfermidades.
Matéria pútrida ressuma dos seus orifícios.
A morte lhe dará um fim.

No outono espalhados,
esses ossos pálidos
como cabaceiros-amargosos esbranquiçados,
tendo visto quem sentirá paixão.

Esta cidade é feita de ossos
com reboco de carne e sangue,
abrigando a presunção e difamação,
velhice e morte.

Até mesmo as carruagens reais decaem,
o corpo também decai,
mas o Dhamma dos nobres não decai
declarado por aqueles bem treinados.

Um touro envelhece,
assim também um homem,
com pouco aprendizado:
a sua massa aumenta,
não a sua sabedoria.

Incontáveis nascimentos, neste samsara
perambulei, buscando sem encontrar
o construtor desta casa:
renascer é sofrimento.

Construtor desta casa você foi visto,
você nunca mais construirá uma casa,
todas as vigas cederam,
a estrutura foi demolida,
a mente superou o condicionado,
a cessação do desejo.

Quem quando jovem
não viveu a vida santa nem enriqueceu
definha como garças envelhecidas
numa lagoa sem peixes.

Quem quando jovem
não viveu a vida santa nem enriqueceu
definha como um arco sem flechas,
remoendo o passado.

12. Attavagga: O Eu

Com apreço por si mesmo,
um sábio se protege e resguarda
durante os três estágios da vida,
desenvolvendo a virtude como proteção.

Estabeleça primeiro a si mesmo
na virtude apropriada.
Um sábio depois ensina os outros
assim não sendo objeto de crítica.

Ao ensinar os outros
o bom exemplo é o que mais vale.
Bem controlado, ele consegue com que os outros se controlem,
o mais difícil é disciplinar a si mesmo.

Cada um é o seu próprio refúgio,
quem mais poderia ser um refúgio?
Treinando bem a si mesmo
um refúgio difícil de ser obtido é conquistado.

O mal é feito pela própria pessoa.
Nascido dela, por ela produzido.
As más ações moem a pessoa tola
tal como o diamante a gema mais dura.

Desprovido de disciplina e virtude,
tal como uma árvore sufocada por uma trepadeira,
ele assim faz contra si mesmo
aquilo que os seus inimigos desejariam.

Fácil é agir com o mal,
prejudicando a si mesmo.
Mas o que é bom, que traz benefício,
é difícil de ser feito.

Os tolos que se apóaim
em idéias equivocadas e desdenham
os ensinamentos dos arahants,
ou dos nobres que vivem o Dhamma.
Iguais à fruta do bambu,
que frutifica para a auto-destruição.

A própria pessoa faz o mal,
ela mesma se contamina,
ela mesma deixa o mal,
ela mesma se purifica.
Pureza, contaminação, dependem dela mesma,
ninguém pode purificar outrem.

Não negligencie o bem maior
por conta de outrem, embora importante.
Saiba bem o que lhe traz benefício
e dedique-se a isso

13. Lokavagga: O Mundo

Não tenha uma conduta inferior
nem seja negligente.
Não adote idéias incorretas,
nem seja envolto pelo mundo.

Desperte! Não seja negligente!
Mantenha a conduta correta, de acordo com o Dhamma.
Quem vive de acordo com o Dhamma
terá felicidade neste mundo e no próximo.

Mantenha a conduta correta, de acordo com o Dhamma,
evite a conduta prejudicial.
Quem vive de acordo com o Dhamma
terá felicidade neste mundo e no próximo.

Como uma bolha,
como uma miragem,
quem assim vê o mundo
não é visto pelo Senhor da morte.

Venha, olhe para este mundo,
tal como uma rica carruagem real
onde os tolos naufragam,
mas quem vê, não tem apego.

Tendo sido negligente
mas agora diligente
ilumine o mundo
como a lua liberta das nuvens.

Quem substitui as ações ruins
com ações benéficas
ilumina o mundo
como a lua liberta das nuvens.

Essa população do mundo está cega,
poucos são aqueles que enxergam.
Tal como os pássaros que se libertam da armadilha,
poucos são aqueles que renascem nos paraísos.

Cisnes no caminho para o sol,
com poderes supra-humanos homens cruzam o espaço,
derrotando Mara com a sua horda
os sábios vão além do mundo.

Quem diz mentiras,
desconsiderando o Dhamma,
desdenhando vidas futuras:
não há mal do qual seja incapaz.

Os avaros não vão para os paraísos,
os ignorantes não elogiam a generosidade,
mas o sábio que se delicia em dar
desfrutará de felicidade na vida futura.

Reinar absoluto sobre toda a terra,
renascer nos paraísos,
ser um monarca universal:
o fruto de entrar na correnteza supera tudo isso.

14. Buddhavagga: O Buda

Por quais rastros traçar o Buda
que não deixa rastros,
cujo alcance é ilimitado,
nenhuma das impurezas destruídas poderão lhe acossar.

Por quais rastros traçar o Buda
que não deixa rastros,
cujo alcance é ilimitado,
que não mais possui o enredamento e o embaraço do desejo
que conduz ao devir.

Dedicado aos jhanas,
deliciando-se na paz da renúncia,
com atenção plena, o perfeito Buda
até mesmo pelos devas é querido.

Difícil é nascer como humano,
a vida para os mortais é difícil.
Difícil é encontrar o verdadeiro Dhamma,
raro o surgimento de um Buda.

Evitar todo o mal,
cultivar o bem,
purificar a própria mente:
esse é o ensinamento do Buda.

A paciência é a suprema ascese,
'nibbana é supremo' diz o Buda.
Não é um verdadeiro bhikkhu quem fere os outros,
nem um verdadeiro contemplativo quem prejudica os outros.

Não buscando defeitos, nem causando dano,
contido pelo patimokkha,
moderado na alimentação,
permanecendo isolado,
dedicado à mente superior:
esse é o ensinamento do Buda.

Mesmo que chovam moedas de ouro
os desejos sensuais não são saciados,
desejos sensuais são dukkha, proporcionam pouca alegria,
isso o sábio compreende.

Mesmo os prazeres celestiais
não oferecem deleite,
o discípulo do perfeito Buda
apenas se delicia com o fim do desejo.

Elas buscam muitos refúgios,
nas montanhas e florestas,
nos parques e santuários:
pessoas ameaçadas pelo medo.

Esse não é o refúgio seguro,
não é o refúgio supremo,
esse não é o refúgio, ao qual se você for,
ganhará a libertação de todo sofrimento.

Mas ao buscar refúgio
no Buda, Dhamma, e Sangha,
alguém vê com perfeita sabedoria
as quatro nobres verdades.

Dukkha, a sua causa,
a sua cessação,
e o nobre caminho óctuplo,
o caminho para silenciar dukkha.

Esse é o refúgio seguro,
esse é o refúgio supremo,
de todo dukkha alguém estará liberto
buscando esse refúgio.

Difícil encontrar uma pessoa extraordinária,
que não nasce em qualquer lugar,
onde quer que essa pessoa sábia e nobre nasça
a sua família desfruta de felicidade.

Afortunado é o nascimento de um Buda,
afortunado é o ensino do Dhamma,
afortunada é a harmonia da Sangha
e afortunada é a sua busca espiritual.

Quem venera os veneráveis
Buda e os seus discípulos
superaram a proliferação,
abandonaram a tristeza e a lamentação.

Aqueles que reverenciam
os pacificados e destemidos,
seu mérito não pode ser computado
por nenhuma medida.

15. Sukhavagga: Felicidade

Amigáveis entre os hostis
felizes permanecemos.
Entre as pessoas enraivecidas
permanecemos livres da raiva.

Amigáveis entre os aflitos
felizes permanecemos.
Entre as pessoas aflitas
permanecemos livres da aflição.

Livres da cobiça entre os cobiçosos
felizes permanecemos.
Entre as pessoas cobiçosas
permanecemos livres da cobiça.

Felizes permanecemos
nada possuindo.
Alimentando-nos de êxtase
iguais aos devas do Abhassara.

A vitória gera hostilidade,
sofrimento nos derrotados.
Os pacificados permanecem felizes
abrindo mão da vitória e da derrota.

Não há fogo como a paixão,
não há aflição como a raiva,
não há dukkha como os agregados,
não há felicidade superior à paz.

Fome é a pior enfermidade,
formações são o pior dukkha,
tendo compreendido como as coisas na verdade são:
nibbana é a felicidade suprema.

Saúde é o maior ganho,
contentamento é a maior riqueza,
alguém confiável é o melhor companheiro,
nibbana é a felicidade suprema.

Tendo saboreado o isolamento
e provado o apaziguamento,
livre da dor, imaculado,
ele saboreia a alegria do Dhamma.

Bom é ver os nobres,
sempre bom estar em sua companhia.
Não ter que lidar com os tolos
sempre traz felicidade.

Deveras quem permanece com os tolos
sofre por muito tempo.
a companhia dos tolos é sempre dolorosa,
como uma parceria com um inimigo.
Mas a companhia dos sábios traz a felicidade,
como o encontro com um parente confiável.

Portanto busque a companhia do nobre que é sábio, estudado,
sólido na virtude, determinado (por nibbana).
Alguém assim deve ser seguido,
tal como a Lua segue o caminho das estrelas.

16. Piyavagga: Afeição

Entregando-se ao que deve ser evitado,
não se esforçando onde o esforço é devido,
abandonando o Caminho, em busca dos prazeres,
sente inveja daqueles que são dedicados.

Não desfrute da companhia daqueles que são queridos,
nem daqueles que não são queridos,
não ver aqueles que são queridos,
ver aqueles que não são queridos,
é dukkha.

Portanto nada tenha como querido,
pois a separação daquilo que é querido é dolorosa.
Não há amarras
em quem não tem nada amado,
nem desamado.

Da afeição nasce a tristeza,
nasce o medo,
quem está livre da afeição
não entristece, como então temer?

Do amor nasce a tristeza,
nasce o medo,
quem está livre do amor
não entristece, como então temer?

Da paixão nasce a tristeza,
nasce o medo,
quem está livre da paixão
não entristece, como então temer?

Do apego nasce a tristeza,
nasce o medo,
quem está livre do apego
não entristece, como então temer?

Do desejo nasce a tristeza,
nasce o medo,
quem está livre do desejo
não entristece, como então temer?

Perfeito em virtude e insight,
firme no Dhamma, conhecedor da verdade,
querido pelas pessoas
ao fazer aquilo que deve ser feito.

Despertando o desejo por nibbana,
com a mente assim bem permeada,
desconectada dos prazeres sensuais,
é dito ser aquele que vai contra a corrente.

Alguém por muito tempo ausente
ao chegar ileso das regiões distantes,
amigos e parentes
se alegram com o seu retorno.

Do mesmo modo, tendo realizado méritos,
ao partir deste mundo para outro,
os méritos o receberão,
como parentes que recebem alguém querido.

17. Kodhavagga: Raiva

Abandonando a raiva e renunciando à presunção,
deixando de lado todos os obstáculos,
não há dukkha em quem nada possui,
desapego da mentalidade-materialidade (nome-forma).

Quem contém a raiva que surge
igual a conter uma carroça em movimento,
esse eu digo ser um verdadeiro cocheiro,
os demais apenas seguram as rédeas.

Conquiste a raiva com a não-raiva,
conquiste o mal com o bem,
com a generosidade conquiste a avareza,
conquiste a mentira com a verdade.

Diga a verdade, não sinta raiva,
do pouco que tenha dê para quem precisa.
Por esses três caminhos
alguém chega à companhia dos devas.

Os sábios inofensivos,
as ações com o corpo bem controladas,
realizam o estado imortal
libertos do sofrimento.

Sempre vigilante,
treinando dia e noite,
decidido por nibbana,
as suas impurezas são destruídas.

Este é um antigo ditado, Atula,
não apenas dito nos dias de hoje:
'Quem permanece em silêncio é censurado,
censurados são os que falam demais,
e censurados são os que falam com moderação' -
ninguém no mundo escapa da censura.

Nunca houve, nunca haverá,
tampouco agora há,
alguém que seja sempre censurado,
ou alguém que seja sempre elogiado.

Mas aqueles que são inteligentes, sábios,
tendo observado dia após dia,
elogiam aquele que tem conduta imaculada,
dotado de virtude e sabedoria,

Quem ousaria censurá-lo
tão puro como o ouro refinado.
Ele é elogiado pelos devas,
Brahma também o elogia.

Proteja-se das ações grosseiras,
com o corpo bem controlado,
tendo abandonado a conduta ruim,
treine naquilo que é bom.

Proteja-se da linguagem grosseira,
com a linguagem bem controlada,
tendo abandonado a conduta verbal ruim,
treine naquilo que é bom.

Proteja-se dos pensamentos grosseiros,
com os pensamentos bem controlados,
tendo abandonado a conduta mental ruim,
treine naquilo que é bom.

Contidos no corpo são os sábios,
na linguagem também eles são contidos,
da mesma forma são contidos na mente,
são perfeitamente contidos.

18. Malavagga: Impurezas

Você agora está como uma folha murcha.
Os mensageiros da morte o aguardam.
Estando no limiar da sua partida,
sem ter feito provisões para a jornada.

Seja uma ilha para você mesmo,
esforçe-se com rapidez e torne-se sábio,
livre de impurezas e desapaixonado
você irá para o plano celestial dos nobres.

A sua vida agora chegou ao fim,
você está a caminho do senhor da morte.
Ao longo do caminho não há descanso
provisões tampouco você dispõem.

Seja uma ilha para você mesmo,
esforçe-se com rapidez e torne-se sábio,
livre de impurezas e desapaixonado
você não retornará para o nascimento e morte.

Gradualmente, pouco a pouco,
momento a momento, o sábio
remove as suas impurezas,
tal como um prateiro remove as impurezas da prata.

Tal como a ferrugem originada do ferro
devora ela mesma o ferro,
assim também as próprias ações
conduzem a um destino ruim.

A não repetição é a impureza das escrituras,
o desleixo a impureza do lar,
o desalinho a impureza da beleza,
a negligência a impureza de quem quer ter controle.

A conduta ruim é a impureza no homem,
a avareza a impureza no doador,
as impurezas são de fato ruins,
neste mundo ou no próximo.

Pior de todas impurezas
é a ignorância, a pior de todas.
Abandonem essa impureza e assim
livrem-se das impurezas, bhikkhus!

Fácil é a vida de um desavergonhado,
impudente como um corvo,
maledicente, presunçoso,
arrogante e corrompido.

Mas difícil é a vida de quem é modesto
sempre em busca da purificação.
Desapegado, humilde,
vivendo imaculado e com discernimento.

Quem no mundo destrói a vida,
diz palavras falsas,
toma aquilo que não é dado livremente,
comete adultério,

ou tem o vício de bebidas embriagantes:
quem com abandono tem esse comportamento
extirpa a sua própria raiz
neste mesmo mundo.

Portanto amigo lembre-se disto:
as ações ruins são difíceis de conter,
não permita que a cobiça e a raiva
o arrastem para o sofrimento prolongado.

As pessoas dão com base na fé,
com claridade e serena confiança.
Descontente com as oferendas,
com a comida e bebida recebidas dos outros,
ele não irá desfrutar da concentração
durante o dia nem à noite.

Mas quem extirpou, desenraizou,
destruiu o descontentamento da mente,
de fato irá desfrutar da concentração
durante o dia e à noite.

Não há fogo igual à paixão,
nem agarramento igual à raiva,
sem igual é a rede da delusão,
nenhum rio igual ao desejo.

Fáceis de serem vistos são os defeitos dos outros,
difíceis mesmo de ver são os nossos;
os defeitos dos outros são revelados
como no ato de separar a casca do grão,
mas os seus próprios defeitos você esconde
como o trapaceiro esconde a jogada perdida.

Quem sempre busca defeitos nos outros,
constantemente criticando,
as suas impurezas se incrementam,
estando distante da destruição das impurezas.

No céu não há nenhum caminho,
nenhum contemplativo do lado de fora,
as massas se deleitam com a proliferação,
os Tathagatas estão livres da proliferação.

No céu não há nenhum caminho,
nenhum contemplativo do lado de fora,
aquilo que é condicionado não é eterno,
não há vacilação nos Budas.

Não é justo
quem julga apressadamente.
Um sábio deve investigar
o certo e o errado.

Quem não é arbitrário ao julgar os outros,
mas julga com imparcialidade
de acordo com o Dhamma,
esse sábio é um guardião do Dhamma, um justo.

Não é falando muito
que alguém é sábio.
Livre da inimizade, seguro, destemido,
esse é o sábio.

Não é por falar muito
que alguém é hábil no Dhamma;
mas mesmo tendo ouvido pouco,
diligente, realizando o Dhamma,
ele de fato é hábil no Dhamma.

Apenas os cabelos grisalhos
não fazem um ancião,
isso é simplesmente velhice,
alguém que envelheceu em vão.

Com a verdade, virtude, sem causar dano,
contido e controlado,
sábio e livre das impurezas,
esse de fato é um ancião.

Não pela eloqüência
ou pela bela aparência
uma pessoa é bela,
se ela for invejosa, egoísta, enganadora.

Mas belo é aquele
em quem essas qualidades foram completamente descartadas,
desenraizadas, totalmente destruídas,
um sábio purificado da raiva, de fato tem boa índole.
264 Não é raspando a cabeça
que alguém indisciplinado e enganador
se torna um contemplativo.
Como pode alguém tomado
pelo desejo e cobiça ser um contemplativo?

19. Dhammatthavagga: Justo

Quem subjuga o mal
pequeno ou grande
é chamado contemplativo,
porque superou todo o mal.

Não é apenas mendigando comida
que ele se torna um bhikkhu.
Não é apenas pela aparência externa
que ele se torna um verdadeiro bhikkhu.

Vivendo a vida santa,
transcendendo o meritório e o demeritório,
tendo compreendido o mundo,
ele de fato é um bhikkhu.

Não é através do silêncio
que alguém tolo e confuso
se torna um sábio.
Mas aquele que é sábio, como se tivesse uma balança,
pesa e apenas adota aquilo que é bom.

Por essa razão ele é um sábio.
Aquele que compreende ambos mundos
é assim chamado sábio.

Ele não é um nobre
ao causar dano aos seres vivos.
Inofensivo,
ele é um nobre.

Não é apenas pela virtude e austeridades,
ou por muito aprendizado,
ou pela concentração,
ou por viver em isolamento,

ou por pensar: 'eu desfruto da felicidade da renúncia
que não é experimentada pelos mundanos',
que vocês bhikkhus deveriam estar satisfeitos,
não tendo alcançado a destruição das impurezas.

20. Maggavagga: O Caminho

De todos caminhos, o caminho óctuplo é o melhor,
de todas verdades, as quatro nobres verdades é o melhor,
de todos estados, o desapego é o melhor,
de toda humanidade, aquele que vê é o melhor.

Esse é o único caminho, não há um outro
para a purificação da visão.
Siga esse caminho
assim desorientando Mara.

Seguindo esse caminho
será o fim de dukkha.
Tendo compreendido como remover a flecha
lhes ensinei o caminho.

Os Tathagatas apenas ensinam o caminho,
vocês devem fazer o esforço.
Seguindo o caminho, meditadores com os jhanas,
se libertarão dos grilhões de Mara.

'Todas as formações são impermanentes' -
Quando alguém vê isso com discernimento
e se desencanta do sofrimento,
esse é o caminho para a purificação.

'Todas as formações são insatisfatórias' -
Quando alguém vê isso com discernimento
e se desencanta do sofrimento,
esse é o caminho para a purificação.

'Todos os dhammas são não-eu' -
Quando alguém vê isso com discernimento
e se desencanta do sofrimento,
esse é o caminho para a purificação.

Ocioso sem se esforçar quando deve,
embora jovem e vigoroso,
tomado pela preguiça e pensamentos inúteis,
não encontrará o caminho para a sabedoria.

Vigiando a linguagem, com a mente bem controlada,
sem praticar ações inábeis com o corpo.
Assim alguém deve purificar esses três meios para realizar kamma
e conquistar o caminho declarado pelo Grande Sábio.

Do empenho nasce a sabedoria,
sem empenho a sabedoria míngua:
conhecendo esses dois caminhos,
do progresso e do declínio,
que ele exorte a si mesmo
para que a sabedoria se incremente.

Cortem a floresta mas não a árvore
visto que é da floresta que nasce o medo.
Tendo cortado a floresta
permaneçam livres da floresta.

Enquanto a mais sutil das paixões
não for eliminada
a mente estará agrilhoada
tal como um bezerro à sua mãe.

Elimine a afeição
tal como uma mão que colhe uma flor de lótus no outono.
Cultive este caminho para a paz, nibbana,
tal como ensinado pelo Abençoado.

'Aqui permanecerei durante as chuvas
aqui no inverno, aqui no verão.'
Assim pensa o tolo,
sem se dar conta do perigo (da morte).

Com a mente tomada pelo apego
deleitando-se com os filhos e os rebanhos,
a morte o encontra e arrasta
tal como uma grande inundação arrasta um vilarejo sonolento.

Quem é tomado pela morte
não tem a proteção de compatriotas.
Não tem ninguém para salvá-lo -
quer sejam filhos, pai, ou parentes.

Tendo compreendido essa realidade
que o virtuoso e sábio
se apresse em abrir o caminho
que conduz a nibbana.

21. Pakinnavagga: Miscelânea

Se, pela renúncia a uma felicidade inferior,
é possível alcançar uma felicidade superior,
que o homem sábio
abandone a inferior pela superior.

Quem almeja a felicidade
impondo o sofrimento aos demais,
enredado pelos grilhões da raiva
não se liberta da raiva.

Aquilo que deve ser feito não é feito,
é feito aquilo que não deve ser,
as impurezas proliferam
naqueles que são arrogantes e negligentes.

Com determinação praticando a atenção plena no corpo,
sem fazer aquilo que não deve ser feito,
com atenção plena e plena consciência,
as impurezas cessam.

Aniquilando a mãe, o pai,
e os dois reis guerreiros.
Destruindo um reino junto com o seu tesoureiro,
incólume segue o verdadeiro Brâmane.

Aniquilando a mãe, o pai,
e os dois reis guerreiros,
bem como os cinco tigres,
incólume segue o verdadeiro Brâmane.

Os discípulos de Gotama,
sempre despertos,
constantemente dia e noite
contemplam as qualidades do Buda.

Os discípulos de Gotama,
sempre despertos,
constantemente dia e noite
contemplam as qualidades do Dhamma.

Os discípulos de Gotama,
sempre despertos,
constantemente dia e noite
contemplam as qualidades da Sangha.

Os discípulos de Gotama,
sempre despertos,
constantemente dia e noite
praticam a atenção plena no corpo.

Os discípulos de Gotama,
sempre despertos,
constantemente dia e noite
se deliciam com a inocuidade.

Os discípulos de Gotama,
sempre despertos,
constantemente dia e noite
se deliciam com o cultivo da mente.

Difícil seguir a vida santa, nela encontrar o deleite.
Difícil e sofrida é a vida em família.
Sofrimento é a companhia daqueles que são diferentes.
O sofrimento acompanha a perambulação no samsara.
Portanto, não perambule sem rumo
em busca do sofrimento.

Quem possui fé e virtude,
boa reputação e riqueza,
onde quer que vá
é sempre respeitado.

A bondade é vista à distância,
tal como as montanhas do Himalaia.
Mesmo próximos os malvados não são vistos,
tal como flechas lançadas na escuridão da noite.

Só ao sentar, só ao deitar,
só ao caminhar,
só no esforço e na contenção,
deliciando-se só na floresta.

22. Nirayavagga: Inferno

O falso acusador vai para o inferno,
também aquele que nega o que tenha feito.
Ambos depois se tornam iguais,
pessoas vis no mundo além.

Muitos impostores vestem o mando de cor ocre
embora com caráter ruim e descontrolados.
Devido às suas ações ruins
esses malfeitores renascem no inferno.

Melhor que ele engula
uma bola de ferro incandescente
do que esse imoral descontrolado
se alimentar de comida esmolada.

Quatro infortúnios acometem aquele
que comete o adultério:
demérito, sono ruim,
má reputação, renascimento no inferno.

Demérito e um renascimento infeliz.
Breve o prazer de homens e mulheres amedrontados.
O rei decreta pesada punição:
portanto, que ninguém seja adúltero.

Tal como o capim kusa se for pego incorretamente
só corta as mãos,
assim também a vida do contemplativo vivida incorretamente
arrasta-o ao inferno.

Atos negligentes,
práticas corrompidas,
celibato duvidoso
- nada disso produz bons frutos.

Se algo deve ser feito
que assim seja com determinação,
uma vida monástica negligente
apenas agita a poeira das paixões.

Melhor não praticar uma ação prejudicial
pois uma ação condenável atormentará mais tarde.
Melhor praticar uma ação benéfica,
que praticada, não atormenta.

Tal como uma cidade fronteiriça
protegida interna e externamente,
assim vocês devem se proteger.
Não negligenciem essa oportunidade,
pois quem perde essa oportunidade
lamenta tendo renascido num estado infeliz.

316 Quem se envergonha onde não há vergonha,
mas onde há vergonha não se envergonha,
assim adotando idéias prejudiciais
os seres renascem no inferno.

Quem vê perigo não há perigo,
mas onde há perigo não o vê,
assim adotando idéias prejudiciais
os seres renascem no inferno.

Quem vê defeito onde não há defeito
mas onde há defeito não o vê,
assim adotando idéias prejudiciais
os seres renascem no inferno.

Vendo o defeito como tal,
também sabendo onde não há defeito,
assim adotando idéias corretas
os seres renascem num destino feliz.

23. Nagavagga: O Elefante

Tal como um elefante num campo de batalha
resiste às flechas lançadas dos arcos,
assim também suportarei as ofensas.
Há muitos, deveras, que não são virtuosos.

Um elefante treinado passa pela multidão.
O rei monta o animal treinado.
Superior entre os homens são os domesticados
que suportam as ofensas.

Excelentes são as mulas bem treinadas,
os puros-sangues de Sindh, e um poderoso elefante,
melhor ainda é aquele domesticado.

No entanto não é com essas montarias
que alguém segue o caminho não trilhado (nibbana).
Segue o caminho aquele com a mente
bem treinada e domesticada.

Difícil de ser controlado o elefante Dhanapala no cio,
com o odor pungente escorrendo das têmporas.
Mantido no cativeiro ele não come nem um bocado
saudoso recordando-se da floresta.

Estúpido e preguiçoso, glutão e dorminhoco,
chafurdando como um gordo porco doméstico,
repetidas vezes segue ao renascimento.

Antes esta mente perambulava como desejava,
de acordo com os seus caprichos e prazeres.
Agora com sabedoria conterei a mente
tal como um domesticador controla um elefante no cio.

Delicie-se sendo diligente!
Proteja bem a mente!
Livre-se do atoleiro de contaminações,
tal como o elefante se livra do lamaçal.

Se para a prática você encontrar um amigo
prudente, virtuoso e sábio,
permaneça com ele com atenção plena e alegria,
superando todas as dificuldades.

Se para a prática não for encontrado um amigo
prudente, virtuoso e sábio,
tal como um rei que deixa para trás a terra conquistada,
siga só, como um elefante solitário na floresta.

Melhor é permanecer só
pois não há companheirismo com os tolos.
Sem fazer o mal, despreocupado,
permaneça só tal como o elefante na floresta.

Felicidade é ter amigos quando surge a necessidade,
felicidade é o contentamento com pouco,
felicidade é o mérito no fim da vida,
felicidade é o abandono de todo sofrimento.

Felicidade neste mundo é servir à mãe,
também felicidade é servir ao pai.
Neste mundo felicidade é servir aos monges,
também felicidade é servir aos Nobres.

Felicidade é a virtude até o fim da vida,
e felicidade é a fé bem estabelecida,
Felicidade é a realização da sabedoria,
e felicidade é evitar o mal.

24. Tanhavagga: O Desejo

Tal como uma furtiva trepadeira
o desejo cresce naquele que é negligente.
Assim ele segue saltando de vida em vida
tal como um macaco em busca de fruta na floresta.

Se no mundo
esse desejo pegajoso e grosseiro o subjuga,
as tristezas crescerão
como o capim após a chuva.

Se no mundo, você subjuga
esse desejo pegajoso e grosseiro, que é difícil de escapar,
as tristezas se esvairão,
como gotas de água num lótus.

Todos aqui presentes, eu digo,
estejam bem!
Desenraizem o desejo
tal como alguém em busca da perfumada raiz de birana.
Não permitam ser esmagados repetidas vezes por Mara,
tal como as hastes do junco numa enxurrada.

Tal como uma árvore, embora cortada,
brota outra vez se as raízes permanecerem intactas e fortes,
da mesma forma,
até que o desejo latente tenha sido desenraizado,
o sofrimento irá brotar repetidas vezes.

Quando as trinta e seis torrentes (do desejo)
fluem com intensidade para os objetos do prazer,
essa pessoa deludida
é arrastada pelos pensamentos apaixonados.

Por toda parte essas torrentes fluem
e a trepadeira (do desejo) brota e cresce.
Ao ver que a trepadeira brotou,
decepe a sua raiz com sabedoria.

Nos seres impregnados pelo desejo
surgem os prazeres dos sentidos.
Com inclinação pelo prazer, em busca do deleite,
eles são aprisionados pelo nascimento e decrepitude.

Seres aprisionados pelo desejo
são aterrorizados como um coelho apanhado no laço.
Presos por grilhões e apegos
o seu sofrimento persiste por muito tempo.

Seres aprisionados pelo desejo
são aterrorizados como um coelho apanhado no laço.
Portanto um bhikkhu que almeja pelo desapego
deveria subjugar o desejo.

Sem desejo (pela vida em família) encontra prazer na floresta (isto é, como um bhikkhu),
mas depois de livre, corre de volta para a vida em família.
Observem bem essa pessoa,
embora livre regressa para a escravidão.

Um grilhão feito de cânhamo, madeira ou ferro
não é tão forte, assim diz um sábio,
quanto o desejo e paixão por
filhos, esposas, jóias e ornamentos.

Esse é um forte grilhão, assim diz um sábio,
que puxa para baixo, embora flexível, difícil de ser removido.
O sábio disso também se desfaz.
Eliminando a paixão, renunciando ao mundo,
abandonando os prazeres sensuais.

Enredado pela paixão
recairá na torrente (de samsara)
tal como uma aranha na sua própria teia.
Elimine a paixão, renuncie ao mundo,
abandone todo sofrimento.

Abandone o passado, abandone o futuro,
abandone o presente, cruze para a outra margem.
Com a mente liberta de tudo
não regresse ao nascimento e decrepitude.

Contemplando os sinais de beleza,
atormentado por pensamentos,
dominado pelas paixões,
o desejo apenas cresce,
assim de fato os grilhões são fortalecidos.

Contemplando os aspectos repulsivos do corpo,
acalmando os pensamentos,
sempre com atenção plena,
o desejo terá um fim
assim de fato os grilhões serão rompidos.

Tendo realizado o objetivo, destemido,
livre do desejo e das paixões,
arrancou o espinho da existência,
este é o seu último corpo.

Livre do desejo e do apego,
hábil no verdadeiro significado
e conhecendo a correta seqüência dos ensinamentos,
sendo este o seu último corpo,
com profunda sabedoria, um homem superior.

Eu sou aquele que transcendeu tudo, aquele que tudo conhece,
imaculado entre todas as coisas, renunciando a tudo,
libertado pela cessação do desejo. Tendo conhecido tudo isso
por mim mesmo, a quem devo apontar como mestre?

Oferecer o Dhamma supera todas as demais oferendas.
O sabor do Dhamma supera todos os demais sabores.
O prazer do Dhamma supera todos os demais prazeres.
A libertação do desejo é o fim do sofrimento.

As riquezas arruínam o tolo
mas não aquele em busca da outra margem,
desejando riquezas o tolo
arruína a si mesmo e aos outros.

As ervas daninhas são a praga dos campos,
a cobiça é a praga da humanidade.
Assim aquilo que é oferecido a quem está livre da cobiça
resulta em abundantes frutos.

As ervas daninhas são a praga dos campos,
a raiva é a praga da humanidade.
Assim aquilo que é oferecido a quem está livre da raiva
resulta em abundantes frutos.

As ervas daninhas são a praga dos campos,
a delusão é a praga da humanidade.
Assim aquilo que é oferecido a quem está livre da delusão
resulta em abundantes frutos.

As ervas daninhas são a praga dos campos,
o desejo é a praga da humanidade.
Assim aquilo que é oferecido a quem está livre do desejo
resulta em abundantes frutos.

25. Bhikkhuvagga: O Monge

Boa é a contenção no olho,
a contenção no ouvido é boa,
boa é a contenção no nariz,
a contenção na língua é boa.

Boa é a contenção no corpo,
a contenção na linguagem é boa,
boa é a contenção na mente,
a contenção em tudo é boa.
O bhikkhu contido de todas as formas
está livre de dukkha.

Com as mãos e os pés controlados
bem como a linguagem, com completo controle,
deliciando-se com a meditação, tranqüilo,
só, satisfeito, ele é chamado um bhikkhu.

Um bhikkhu com a língua sob controle
fala com sabedoria, despretensioso,
capaz de explicar o fraseado e o significado,
doce como o mel é o seu discurso.

O bhikkhu que permanece com o Dhamma,
pondera e se delicia com o Dhamma,
se recorda do Dhamma -
não decai do verdadeiro Dhamma.

Sem desprezar o que recebeu
nem invejar o que outros receberam.
O bhikkhu que é invejoso
não realiza samadhi.

Sem desprezar o que tenha recebido
mesmo que seja pouco,
com o modo de vida purificado, dedicado,
esse bhikkhu é elogiado pelos devas.

Em quem não há a fabricação 'meu'
em relação à mentalidade-materialidade,
que não se aflige pelo que não é,
deveras ele é chamado bhikkhu.

O bhikkhu que permanece com amor-bondade,
dedicado aos ensinamentos do Buda,
realiza o estado de paz e felicidade,
o silenciar da condicionalidade.

Oh bhikkhu esvazie esse barco!
Vazio seguirá com presteza.
Livre da cobiça e da raiva
nibbana será realizado.

Corte cinco e abandone cinco,
cultive outros cinco,
um bhikkhu livre de cinco grilhões
é chamado aquele que cruzou a torrente.

Medite bhikkhu! Não seja negligente!
Não permita que os prazeres dos sentidos rodopiem a mente!
Negligente devorará bolas de ferro incandescentes!
Ao arder não lamente, 'Isso é dukkha'!

Não existe concentração (jhana) sem sabedoria,
e não existe sabedoria sem concentração.
Aquele que tem ambos concentração e sabedoria,
está mais próximo de nibbana.

O bhikkhu que busca um local isolado,
com a mente calma,
compreende o Dhamma com insight,
experimenta a felicidade transcendente.

Vendo com clareza
o surgimento e cessação dos agregados
ele experimenta o êxtase e o contentamento.
É o imortal para aqueles que sabem.

Controle dos sentidos, contentamento,
contenção pelas regras do Patimokkha,
Essa é a base para a vida santa
de um bhiikhu sábio.

Bons amigos, nobres, energéticos e puros.
Gentil e com fina conduta.
assim pleno de contentamento
dará um fim a dukkha.

Tal como o jasmim
que descarta as flores murchas,
assim também vocês bhikkhus
descartem a cobiça e a raiva.

O bhikkhu com o corpo e a linguagem calmos,
com a mente calma e bem controlada,
tendo renunciado aos prazeres mundanos,
deveras é chamado de 'pacificado'.

Você mesmo exorte a si mesmo!
Você mesmo examine a si mesmo!
Com atenção plena protegendo a si mesmo
o bhikkhu sempre estará feliz.

Seja o seu próprio protetor,
seja o seu próprio refúgio.
Assim controle a si mesmo
tal como um mercador a sua preciosa montaria.

Pleno de contentamento e confiante
nos ensinamentos do Buda,
o bhikkhu realizará o estado de paz,
a felicidade da cessação do condicionado.

Com certeza o jovem bhikkhu
que se empenha no ensinamento do Buda
ilumina todo o mundo
tal como a lua livre das nuvens.

26. Brahmanavagga: O Brâmane

Brâmane, empenhe-se e destrua a torrente,
deixe de lado os prazeres dos sentidos,
tendo compreendido a cessação do condicionado,
realize nibbana.

Quando o brâmane alcança o ápice
dos dois caminhos,
ele realiza a verdade
e todos grilhões desaparecem.

Em quem não há esta nem a outra margem,
tampouco ambas,
sem temores e livre dos grilhões,
esse é o verdadeiro brâmane.

Meditando, isolado, livre de contaminações,
com a tarefa feita, livre das impurezas,
tendo realizado o objetivo supremo,
esse é o verdadeiro brâmane.

O sol brilha durante o dia,
a lua ilumina a noite,
o rei brilha na sua armadura,
o brâmane brilha nos jhanas.
Mas durante todo o dia e à noite também
resplandecente brilha o Buda.

Removendo o mal ele é chamado brâmane,
com a conduta serena ele é chamado samana,
tendo removido todas as contaminações ele é chamado pabbajita.

Não acerte um brâmane,
nem que por isso ele reaja.
Vergonha quem acerta um brâmane,
mais vergonha quem se deixa tomar pela raiva.

A mente que se afasta do que é querido
é de grande benefício para um brâmane.
O tanto que cessa a intenção de causar o dano,
na mesma medida dukkha cessa.

Quem não pratica o mal
através do corpo, linguagem ou mente,
contido dessas três formas,
esse é o verdadeiro brâmane.

Tal como o sacerdote brâmane reverencia o fogo,
da mesma forma deve ser reverenciado
aquele de quem se aprende o Dhamma
ensinado pelo Perfeitamente Iluminado.

Não pelo ascetismo, linhagem,
ou nascimento, alguém se torna um brâmane.
Mas naquele em que está presente a verdade e o Dhamma,
ele é puro, é um brâmane.

Para que serve esse cabelo emaranhado?
Para que serve esse manto de pele de antílope?
No seu íntimo há o emaranhado das paixões,
somente no exterior você se mostra purificado.

Vestindo um manto feito de trapos,
o corpo com veias expostas,
só na floresta, cultivando os jhanas,
esse é o verdadeiro brâmane.

Eu não digo que alguém seja um brâmane
devido à sua origem e linhagem.
Se os impedimentos ainda nele se ocultam,
ele é apenas um dos que diz ‘Senhor.’
Mas aquele que está desimpedido e não tem mais apego:
esse é o verdadeiro brâmane.

Rompendo todos os grilhões,
não mais abalado pela raiva,
superando todos os vínculos, emancipado:
esse é o verdadeiro brâmane.

Cortando todas as amarras e correias,
bem como o cabresto e a embocadura,
cuja trave foi removida, iluminado:
esse é o verdadeiro brâmane.

Agüentando sem o menor indício de ressentimento,
o abuso, a violência e também o cativeiro,
cujo poder e força verdadeira é a paciência:
esse é o verdadeiro brâmane.

Não se incendeia com a raiva,
obediente, virtuoso e modesto,
domesticado, suportando o seu último corpo:
esse é o verdadeiro brâmane.

Como a chuva nas folhas do lótus,
ou uma semente de mostarda na ponta duma agulha,
de modo algum se apega aos prazeres sensuais:
esse é o verdadeiro brâmane.

Nesta mesma vida realizando por si mesmo
o fim de todo o sofrimento,
deitando o fardo e se emancipando:
esse é o verdadeiro brâmane.

Com profundo entendimento, sábio,
hábil na distinção entre o caminho e o descaminho,
tendo alcançado o objetivo supremo:
esse é o verdadeiro brâmane.

Reservado em relação aos chefes de família
e da mesma forma em relação aos contemplativos,
perambulando sem morada fixa e com poucas necessidades:
esse é o verdadeiro brâmane.

Renunciando à violência contra todos os seres vivos,
fracos ou fortes,
que não mata ou faz com que outros matem:
esse é o verdadeiro brâmane.

Amigável entre os hostis,
pacífico entre os violentos,
desapegado entre os apegados:
esse é o verdadeiro brâmane.

Cobiça e raiva, presunção e desprezo,
se despegaram igual à semente de mostarda
da ponta duma agulha:
esse é o verdadeiro brâmane.

Empregando linguagem gentil,
instrutiva, verdadeira,
sem ofender a ninguém:
esse é o verdadeiro brâmane.

No mundo nunca toma nada
que não tenha sido dado, quer seja longo ou curto,
grande ou pequeno, bom ou ruim:
esse é o verdadeiro brâmane.

Não deseja mais nada
quer seja deste mundo ou do próximo,
livre do desejo e emancipado:
esse é o verdadeiro brâmane.

Não possui mais apegos,
nem perplexidades, pois sabe,
tendo mergulhado no Imortal:
esse é o verdadeiro brâmane.

Neste mundo transcendendo todos os vínculos
tanto com os méritos como com os deméritos,
livre do sofrimento, imaculado e puro:
esse é o verdadeiro brâmane.

Imaculado como a lua,
puro, sereno e imperturbado,
tendo destruído o desejo por ser/existir:
esse é o verdadeiro brâmane.

Superando esse samsara lodoso,
perigoso, enganador,
meditando com os jhanas, cruzando para a outra margem,
imperturbável, sem perplexidade,
realizando nibbana através do desapego:
esse é o verdadeiro brâmane.

Abandonando os prazeres sensuais
renunciando à vida em família, perambulando como um eremita,
destruindo ambos o desejo pelos prazeres dos sentidos
e pela continuada existência:
esse é o verdadeiro brâmane.

Abandonando o desejo
renunciando à vida em família, perambulando como um eremita,
destruindo ambos o desejo
e a continuada existência:
esse é o verdadeiro brâmane.

Abandonando todos os vínculos humanos,
e transcendendo todos os vínculos celestiais,
desapegando-se de todos os vínculos:
esse é o verdadeiro brâmane.

Abandonando o deleite e o descontentamento,
arrefecido e sem apegos,
o herói que transcendeu todo o mundo:
esse é o verdadeiro brâmane.

Conhecendo de todos os modos
a morte e o renascimento dos seres,
desapegado, abençoado, iluminado:
esse é o verdadeiro brâmane.

Cujo destino não é do conhecimento
de devas e humanos,
um arahant com as impurezas destruídas:
esse é o verdadeiro brâmane.

Sem apego por absolutamente nada,
do passado, presente e futuro,
desimpedido e sem se agarrar a nada:
esse é o verdadeiro brâmane.

O líder do rebanho, o perfeito herói,
o grande sábio, o conquistador,
imperturbável, imaculado, iluminado:
esse é o verdadeiro brâmane.

Conhecendo as suas vidas passadas,
vendo os mundos paradisíacos e os mundos inferiores,
chegando ao fim dos nascimentos,
um sábio com perfeito conhecimento supra-humano,
completo em todos aspectos:
esse é o verdadeiro brâmane.