Majjhima Nikāya 80

Vekhaṇassa Sutta

Para Vekhaṇassa

Assim ouvi. Em certa ocasião o Abençoado estava em Sāvatthī no Bosque de Jeta, no Parque de Anātha­piṇḍika.

Então, o errante Vekhaṇassa foi até o Abençoado e ambos se cumprimentaram. Quando a conversa amigável e cortês havia terminado, ele ficou em pé a um lado e na presença do Abençoado proferiu a seguinte exclamação:

“Este é o esplendor perfeito, este é o esplendor perfeito!”

“Mas, Kaccāna, porque você diz: ‘Este é o esplendor perfeito, este é o esplendor perfeito!?’ O que é esse esplendor perfeito?”

“Mestre Gotama, esse esplendor é o esplendor perfeito que não é superado por nenhum outro esplendor mais elevado ou mais sublime.”

“Mas, Kaccāna, o que é esse esplendor que não é superado por nenhum outro esplendor mais elevado ou mais sublime?”

“Mestre Gotama, esse esplendor é o esplendor perfeito que não é superado por nenhum outro esplendor mais elevado ou mais sublime.”

“Kaccāna, você pode por muito tempo continuar dizendo isso … (igual ao MN 79.10–18) … mas você não indica que esplendor é esse.

“Kaccāna, existem esses cinco elementos do prazer sensual. Quais cinco? Formas conscientizadas através do olho que são desejáveis, agradáveis e fáceis de serem gostadas, conectadas com o desejo sensual e que provocam a cobiça. Sons conscientizados através do ouvido … Aromas conscientizados através do nariz … Sabores conscientizados através da língua … Tangíveis conscientizados através do corpo que são desejáveis, agradáveis e fáceis de serem gostados, conectados com o desejo sensual e que provocam a cobiça. Esses são os cinco elementos do prazer sensual.

“Agora, Kaccāna, o prazer e a alegria que surgem na dependência desses cinco elementos do prazer sensual são chamados de prazer sensual. Portanto, o prazer sensual [surge] através dos prazeres sensuais, mas além do prazer sensual há um prazer mais elevado do que o sensual e ele é declarado como o superior dentre eles.”

Quando isso foi dito, o errante Vekhaṇassa disse: “É maravilhoso, Mestre Gotama, é surpreendente, quão bem isso foi expresso pelo Mestre Gotama: ‘Portanto, o prazer sensual [surge] através dos prazeres sensuais, mas além do prazer sensual há um prazer mais elevado do que o sensual e ele é declarado como o superior dentre eles.’”

“Kaccāna, para você que possui um entendimento distinto, que aceita um outro ensinamento, que aprova um outro ensinamento, que se dedica a um treinamento distinto, que segue um mestre distinto, é difícil saber o que é a sensualidade ou o que é o prazer sensual, ou o que é o prazer mais elevado do que o sensual. Mas aqueles bhikkhus que são arahants com as impurezas destruídas, que viveram a vida santa, fizeram o que devia ser feito, depuseram o fardo, alcançaram o objetivo verdadeiro, destruíram os grilhões da existência e estão completamente libertados através do conhecimento supremo—são eles que sabem o que é a sensualidade, o que é o prazer e o que é o prazer mais elevado do que o sensual.”

Quando isso foi dito, o errante Vekhaṇassa ficou zangado e irritado, ele insultou, menosprezou e censurou o Abençoado dizendo: “O contemplativo Gotama será derrotado.” Ele então disse para o Abençoado: “Então há aqui alguns contemplativos e brâmanes que sem conhecer o passado e sem ver o futuro, no entanto dizem: ‘O nascimento está destruído, a vida santa foi vivida, o que devia ser feito foi feito, não há mais vir a ser a nenhum estado.’ O que eles dizem acaba se tornando ridículo; acaba se tornando meras palavras, vazias e ocas.”

“Se algum contemplativo ou brâmane, sem conhecer o passado e sem ver o futuro, no entanto diz: ‘O nascimento está destruído, a vida santa foi vivida, o que devia ser feito foi feito, não há mais vir a ser a nenhum estado,’ ele pode ser refutado de acordo com o Dhamma. Melhor, Kaccāna, deixe o passado e o futuro de lado. Que venha um homem sábio, alguém que seja honesto e sincero, um homem íntegro. Eu o instruirei, eu ensinarei o Dhamma para ele de tal modo que, praticando da forma instruída, ele em breve saberá e verá por si mesmo: ‘Pois, de fato, assim ocorre a libertação do cativeiro, isto é, do cativeiro da ignorância.’ Suponha, Kaccāna, que houvesse um tenro jovem bebê deitado de costas, atado por quatro ataduras fortes [nos quatro membros] e a quinta no pescoço; e mais tarde, como resultado do seu crescimento e do amadurecimento das suas faculdades, essas ataduras se afrouxassem, ele saberia que ‘Eu estou livre’ e não haveria mais cativeiro. Da mesma maneira, que venha um homem sábio … ‘Pois, de fato, assim ocorre a libertação do cativeiro, isto é, do cativeiro da ignorância.’”

Quando isso foi dito, o errante Vekhaṇassa disse para o Abençoado: “Magnífico, Mestre Gotama! Magnífico, Mestre Gotama! Mestre Gotama esclareceu o Dhamma de várias formas, como se tivesse colocado em pé o que estava de cabeça para baixo, revelasse o que estava escondido, mostrasse o caminho para alguém que estivesse perdido ou segurasse uma lâmpada no escuro para aqueles que possuem visão pudessem ver as formas. Eu busco refúgio no Mestre Gotama, no Dhamma e na Saṅgha dos bhikkhus. Que o Mestre Gotama me aceite como discípulo leigo que buscou refúgio para o resto da vida.”