COLEÇÃO DAS REGRAS MONÁSTICAS DO BUDISMO THERAVĀDA

O Código de Disciplina Monástica dos Bhikkhus

Regras Nissaggiya 2: Afastamento dos mantos

História de origem

Primeiro sub-relato

Em certa ocasião o Abençoado estava em Savathi no Bosque de Jeta, no Parque de Anathapindika. Naquela época, alguns bhikkhus, após guardar um dos seus mantos com outros bhikkhus, viajaram portando consigo apenas um manto interno e um manto externo. Por terem sido guardados por muito tempo aqueles mantos mofaram, (vendo aquilo) os bhikkhus que os guardavam os colocaram no sol.

Enquanto inspecionava as instalações, o Venerável Ānanda viu aqueles bhikkhus colocando aqueles mantos no sol. Ele então lhes perguntou: “De quem são estes mantos mofados?” E então aqueles bhikkhus lhe contaram o ocorrido. O Venerável Ānanda se queixou e os criticou: “Como podem esses bhikkhus guardar um dos seus mantos com outros bhikkhus e em seguida ir viajar com apenas um manto interno e um manto externo?”

Depois de criticar aqueles bhikkhus em muitos aspectos, o Venerável Ānanda informou ao Abençoado. … “É verdade, bhikkhus, que alguns de vocês estão agindo desta forma?”

“É verdade, mestre.”

O Buda então os criticou: “… Homens tolos, como puderam vocês guardar um dos seus mantos com outros bhikkhus e em seguida ir viajar com apenas um manto interno e um manto externo? Isto não fará surgir fé naqueles ainda sem fé … E então, bhikkhus, esta regra de treinamento deve ser assim recitada:

Regra Preliminar

“Se após o término da confecção do manto e o fim do período de kathina, se um bhikkhu permanece afastado de seus três mantos, mesmo que por apenas um único dia, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia.”

Foi desta forma que o Abençoado estabeleceu para os bhikkhus esta regra de treinamento.

Segundo sub-relato

Certa vez, um certo bhikkhu de Kosambī ficou doente. Os parentes daquele bhikkhu lhe mandaram uma mensagem: “Venha, Venerável, nós cuidaremos de você.” Outros bhikkhus o encorajaram a ir, mas ele disse: “O mestre estabeleceu uma regra de treinamento que diz que um bhikkhu não deve não se afastar de seus três mantos. Eu estou doente, e portanto eu não poderei viajar com todos os três mantos. Sendo assim, não posso ir.”

Eles informaram o Abençoado do ocorrido. O Abençoado então deu um ensinamento e se dirigiu aos bhikkhus:

“Bhikkhus, eu permito que vocês autorizem um bhikkhu doente se afastar de seus três mantos. E a permissão deve deve ser dada desta forma: “Após abordar a Sangha dos bhikkhus aquele bhikkhu deverá colocar seu manto sobre um ombro, prestar homenagem aos pés dos bhikkhus sêniores, ajoelhar-se, levantar as mãos juntas em anjali, e dizer: ‘Veneráveis, eu estou doente, e não sou capaz de viajar com meus três mantos. Peço que a Sangha me autorize a me afastar de meus três mantos.’ E ele deve repetir o pedido uma segunda e uma terceira vez.

Em seguida, um bhikkhu experiente e competente deve informar a Sangha: “‘Veneráveis, possa a Sangha me escutar. Tal e tal bhikkhu se encontra doente. Ele se encontra incapacitado de viajar com seus três mantos. Ele está pedindo que a Sangha lhe permita se afastar de seus três mantos. Se conveniente para a Sangha, esta deve permitir que tal e tal bhikkhu se afaste de seus três mantos. Esta é a moção.

“‘A Sangha permite que tal e tal bhikkhu se afaste de seus três mantos. A Sangha aprova e portanto não se pronuncia. Assim me lembrarei.’

“Veneráveis, possa a Sangha me escutar. Tal e tal bhikkhu se encontra doente. Ele se encontra incapacitado de viajar com seus três mantos. Ele está pedindo que a Sangha lhe permita se afastar de seus três mantos. A Sangha permite que tal e tal bhikkhu se afaste de seus três mantos. Aqueles que aprovarem devem permanecer em silêncio. Aqueles que não aprovarem devem dizê-lo.

“‘A Sangha permite que tal e tal bhikkhu se afaste de seus três mantos. A Sangha aprova e portanto não se pronuncia. Assim me lembrarei.’

“E então, bhikkhus, esta regra de treinamento deve ser assim recitada:

Regra final

“Se após o término da confecção do manto e o fim do período de kathina, se um bhikkhu permanece afastado de seus três mantos, mesmo que por apenas um único dia, a não ser quando os bhikkhus lhe tenham dado a permissão, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia.”

Definições

Quando terminada a confecção de seu manto: o bhikkhu fez um manto, ou o tecido para um manto foi perdido, destruído ou queimado; ou ele abandonou sua expectativa de receber mais tecidos para mantos.

Terminado o período de kathina: o período terminou de acordo com uma das oito circunstâncias, ou Sangha dos bhikkhus declarou seu fim, o que vier primeiro.

Se um bhikkhu permanece afastado de seus três mantos, mesmo que por apenas um único dia: se ele se afastar de seu manto externo, superior ou inferior.

A não ser quando os bhikkhus lhe tenham dado a permissão: a menos que ele tenha recebido formalmente a permissão.

Que implica a confissão com renúncia:

A ofensa é cometida ao amanhecer. A posse do manto—ou o tecido para um manto—deverá ser renunciada e transferida para a Sangha dos bhikkhus, um grupo de bhikkhus ou um determinado bhikkhu.

“E, bhikkhus, este deverá ser renunciado desta maneira: … (É expandido como na Regra Nissaggiya 1, com as devidas substituições) … ‘Veneráveis, este manto do qual me afastei por um dia sem a permissão dos bhikkhus deve ser renunciado. Eu o cedo para a Sangha.’ … ‘… a Sangha deve devolver … os Veneráveis devem devolver’ … ‘Eu devolvo este manto para este venerável.’”

Permutações

Permutações parte 1

Resumo

Uma área habitada pode ter uma única ou várias entradas; uma construção pode ter uma única ou várias entradas; uma edícula pode ter uma única ou várias entradas; uma torre de vigia pode ter uma única ou várias entradas; uma construção não cercada pode ter uma única ou várias entradas; uma embarcação pode ter uma única ou várias entradas; uma caravana pode ter uma única ou várias entradas; uma lavoura pode ter uma única ou várias entradas; uma eira pode ter uma única ou várias entradas; um parque pode ter uma única ou várias entradas; uma morada (monástica) pode ter uma única ou várias entradas; o pé de uma árvore pode ter um único ou vários acessos; uma certa área ao ar livre pode ter um único ou vários acessos.

Exposição

Uma área habitada cercada propriedade de uma família: se o manto é guardado dentro da área habitada, o bhikkhu deve permanecer dentro da área habitada. Se a área habitada não é cercada: o bhikkhu deve permanecer dentro da construção (que se encontra em tal área habitada) onde o manto é guardado, e não se afastar para além de uma braça da construção.

Uma área habitada cercada propriedade de várias famílias: se o manto é guardado dentro de uma construção, o bhikkhu deve permanecer ou dentro desta, ou no salão para assembléias, ou na entrada da área habitada, e não se afastar para além de uma braça do salão para assembléias ou da entrada da área habitada. Se a área habitada não é cercada: o bhikkhu deve permanecer dentro da construção (que se encontra em tal área habitada) onde o manto é guardado, e não se afastar para além de uma braça da construção.

Uma construção cercada propriedade de uma família e tendo muitos cômodos: se o manto é guardado dentro da construção, o bhikkhu deve permanecer dentro desta. Se a construção não é cercada: o bhikkhu deve permanecer dentro do cômodo no qual o manto é guardado, e não se afastar para além de uma braça do cômodo.

Uma construção cercada propriedade de várias famílias e tendo muitos cômodos: se o manto é guardado dentro de um cômodo, o bhikkhu deve permanecer ou dentro deste, ou no salão de entrada da construção, e não se afastar para além de uma braça do cômodo ou do salão de entrada da construção. Se a construção não é cercada: o bhikkhu deve permanecer dentro do cômodo no qual o manto é guardado, e não se afastar para além de uma braça do cômodo.

Uma edícula cercada propriedade de uma família e tendo muitos cômodos: se o manto é guardado dentro da edícula, o bhikkhu deve permanecer dentro desta. Se a edícula não é cercada: o bhikkhu deve permanecer dentro do cômodo no qual o manto é guardado, e não se afastar para além de uma braça do cômodo.

Uma edícula cercada propriedade de várias famílias e tendo muitos cômodos: se o manto é guardado dentro de um cômodo, o bhikkhu deve permanecer ou dentro deste, ou no salão de entrada da edícula, e não se afastar para além de uma braça do cômodo ou do salão de entrada da edícula. Se a edícula não é cercada: o bhikkhu deve permanecer dentro do cômodo no qual o manto é guardado, e não se afastar para além de uma braça do cômodo.

Uma torre propriedade de uma família: se o manto é guardado dentro da torre, o bhikkhu deve permanecer dentro desta. Uma torre propriedade de várias famílias e tendo muitos cômodos: o bhikkhu deve permanecer ou dentro do cômodo onde se encontra o manto, ou no salão de entrada da torre, e não se afastar para além de uma braça do cômodo ou do salão de entrada da torre.

Uma construção não cercada propriedade de uma família: se o manto é guardado dentro da construção não cercada, o bhikkhu deve permanecer dentro desta. Uma construção não cercada propriedade de várias famílias e tendo muitos cômodos: o bhikkhu deve permanecer ou dentro do cômodo onde se encontra o manto, ou no salão de entrada da construção não cercada, e não se afastar para além de uma braça do cômodo ou do salão de entrada da construção não cercada.

Uma embarcação propriedade de uma família: se o manto é guardado dentro da embarcação, o bhikkhu deve permanecer dentro desta. Uma embarcação propriedade de várias famílias e tendo muitos cômodos: o bhikkhu deve permanecer ou dentro do cômodo onde se encontra o manto, e não se afastar para além de uma braça deste.

Uma caravana propriedade de uma família: se o manto é guardado dentro da caravana, o bhikkhu não deve se afastar mais do que cem metros adiante ou atrás desta ou mais do que catorze metros para direita ou esquerda desta. Uma carava propriedade de várias famílias e tendo muitos cômodos: o bhikkhu não deve se afastar para além de uma braça desta.

Uma lavoura cercada propriedade de uma família: se o manto é guardado dentro da lavoura, o bhikkhu deve permanecer dentro desta. Se a lavoura não é cercada: o bhikkhu não deve se afastar para além de uma braça do manto. Uma lavoura cercada propriedade de várias famílias: se o manto é guardado dentro da lavoura, o bhikkhu deve permanecer na entrada desta e não deve se afastar para além de uma braça desta. Se a lavoura não é cercada: o bhikkhu não deve se afastar para além de uma braça do manto.

Uma eira cercada propriedade de uma família: se o manto é guardado dentro da eira, o bhikkhu deve permanecer dentro desta. Se a eira não é cercada: o bhikkhu não deve se afastar para além de uma braça do manto. Uma eira cercada propriedade de várias famílias: se o manto é guardado dentro da eira, o bhikkhu deve permanecer na entrada desta e não deve se afastar para além de uma braça desta. Se a eira não é cercada: o bhikkhu não deve se afastar para além de uma braça do manto.

Um parque cercado propriedade de uma família: se o manto é guardado dentro do parque, o bhikkhu deve permanecer dentro deste. Se o parque não é cercado: o bhikkhu não deve se afastar para além de uma braça do manto. Um parque cercado propriedade de várias famílias: se o manto é guardado dentro do parque, o bhikkhu deve permanecer na entrada deste e não deve se afastar para além de uma braça desta. Se o parque não é cercado: o bhikkhu não deve se afastar para além de uma braça do manto.

Uma morada (monástica) cercada propriedade de uma família: se o manto é guardado dentro da morada, o bhikkhu deve permanecer dentro daquela morada. Se a morada não é cercada: o bhikkhu deve permanecer dentro da cabana (que se encontra em tal morada) onde o manto é guardado, e não se afastar para além de uma braça da cabana. Uma morada (monástica) cercada propriedade de várias famílias: se o manto é guardado dentro de uma cabana, o bhikkhu deve permanecer ou dentro desta, ou na entrada da morada, e não se afastar para além de uma braça da entrada da morada. Se a morada não é cercada: o bhikkhu deve permanecer dentro da cabana (que se encontra em tal morada) onde o manto é guardado, e não se afastar para além de uma braça da cabana.

O pé de uma árvore propriedade de uma família: se o manto é guardado dentro dos limites da sombra daquela árvore ao meio-dia, o bhikkhu deve permanecer dentro desta área. O pé de uma árvore propriedade de várias famílias: o bhikkhu não deve se afastar para além de uma braça do manto.

Uma certa área ao ar livre com uma localidade: situada numa área desabitada, a localidade se extende por um raio de cem metros ao redor do bhikkhu. Uma certa área ao ar livre com uma localidade: abrange também o que se encontra para além de tal raio.

Permutações parte 2

Se o bhikkhu se afastou de seu manto e ele percebe ter se afastado, então, a não ser quando os bhikkhus lhe tenham dado a permissão, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se o bhikkhu se afastou de seu manto, mas ele não tem certeza de ter se afastado, então, a não ser quando os bhikkhus lhe tenham dado a permissão, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se o bhikkhu se afastou de seu manto, mas ele percebe não ter se afastado, então, a não ser quando os bhikkhus lhe tenham dado a permissão, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia.

Se o bhikkhu não renunciou seu manto, mas ele percebe tê-lo feito, então, a não ser quando os bhikkhus lhe tenham dado a permissão, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se o bhikkhu não cedeu seu manto, mas ele percebe tê-lo feito, então, a não ser quando os bhikkhus lhe tenham dado a permissão, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se o bhikkhu não perdeu seu manto, mas ele percebe tê-lo perdido, então, a não ser quando os bhikkhus lhe tenham dado a permissão, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se o bhikkhu não teve seu manto destruído, mas ele percebe assim, então, a não ser quando os bhikkhus lhe tenham dado a permissão, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se o bhikkhu não teve seu manto queimado, mas ele percebe assim, então, a não ser quando os bhikkhus lhe tenham dado a permissão, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se o bhikkhu não teve seu manto roubado, mas ele percebe assim, então, a não ser quando os bhikkhus lhe tenham dado a permissão, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia.

Se o bhikkhu usa um manto que era para ter sido renunciado sem primeiro transferi-lo, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão. Se o bhikkhu não se afastou de seu manto, mas ele percebe que ter se afastado, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão. Se o bhikkhu não se afastou de seu manto, mas não tem certeza, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão. Se o bhikkhu não se afastou de seu manto, e ele assim o entende, não há ofensa.

Quando não é uma ofensa

Não há ofensa quando: se antes do amanhecer o manto é transferido, dado, perdido, destruído, queimado, roubado ou é tomado tendo sido confiado a quem toma; se os bhikkhus lhe deram a permissão; o indivíduo se encontra louco; ele é o primeiro a cometer a ofensa.

A segunda regra nissaggiya—relacionada com o afastamento dos mantos—se encerra aqui.