COLEÇÃO DAS REGRAS MONÁSTICAS DO BUDISMO THERAVĀDA

O Código de Disciplina Monástica dos Bhikkhus

Regras Nissaggiya

23. Tônicos

História de origem

Certa ocasião, o Abençoado estava em Sāvatthī no Bosque de Jeta, no Parque de Anāthapiṇḍika. Naquela ocasião o venerável Pilindavaccha tinha a intenção de construir um abrigo, e para isto uma encosta era desmatada perto de Rājagaha. O Rei Seniya Bimbisāra de Magadha foi então até Pilindavaccha, o homenageou, sentou a um lado e disse: “Venerável, o que o senhor está fazendo?”

“Grande rei, esta encosta está sendo desmatada pois é minha intenção construir um abrigo.”

“O senhor precisa de um trabalhador para ajudar no mosteiro?”

“Grande rei, o Abençoado não autorizou o uso de trabalhadores para ajudar no mosteiro.”

“Pois bem, venerável, por favor consulte o Abençoado e deixe-me saber.”

“Sim, Grande rei.”

E em seguida ele instruiu, inspirou e alegrou o Rei Bimbisāra com um ensinamento do Dhamma. O rei então levantou-se de seu assento, homenageou Pilindavaccha e, mantendo- o à sua direita, partiu.

Logo depois, Pilindavaccha mandou uma mensagem para o Abençoado: “Venerável, o rei Seniya Bimbisāra de Magadha gostaria de ceder um trabalhador para ajudar no mosteiro. O que devo eu fazer neste caso?” Após receber aquela mensagem, o Abençoado deu um ensinamento e então se dirigiu aos bhikkhus: “Bhikkhus, eu permito o uso de trabalhadores para ajudar no mosteiro.”

Uma segunda vez, o Rei Seniya Bimbisāra de Magadha foi então até Pilindavaccha, o homenageou, sentou a um lado e disse: “Venerável, o Abençoado permitiu o uso de trabalhadores para ajudar no mosteiro?”

“Sim, grande rei, ele permitiu.”

“Pois bem, eu lhe cederei trabalhadores para ajudar no mosteiro.”

Após fazer aquela promessa de ceder trabalhadores para ajudar no mosteiro de Pilindavaccha, o rei acabou se esquecendo do que havia dito. E ele apenas se lembrou do que havia prometido após muito tempo, quando então ele se dirigiu ao ministro responsável por assuntos práticos, “E então? Já foi cedido o trabalhador que prometi?”

“Sua majestade, o trabalhador ainda não foi cedido.”

“Quanto tempo faz que eu fiz a promessa?”

O ministro contou os dias e disse, “Sua majestade, já se passaram quinhentos dias”.

“Pois bem, sendo assim envie quinhentos trabalhadores.”

“Sim, sua majestade”.

O ministro enviou então quinhentos trabalhadores para ajudar no mosteiro de Pilindavaccha, o que resultou no surgimento de um vilarejo. E aquele vilarejo era chamado de “Vila dos trabalhadores de mosteiro” e “ Vila de Pilinda”.

E Pilindavaccha começou a se associar com as famílias daquele vilarejo.

Certa manhã, Pilinda se vestiu e, tomando a tigela e o manto externo, foi até aquele vilarejo esmolar alimentos. Naquela ocasião um festival era celebrado naquele vilarejo. As crianças estavam enfeitadas com ornamentos e guirlandas. Conforme Pilindavaccha fazia sua ronda de esmolas no vilarejo ele chegou até a casa de um certo trabalhador, e lá ele se sentou num assento que havia sido preparado. Foi então que a filha daquela família viu as outras crianças enfeitadas com ornamentos e guirlandas. Vendo aquilo ela choramingou: “Eu quero uma guirlanda! Eu quero ornamentos!” E então Pilindavaccha perguntou para a mãe daquela criança: “Por qual razão a criança chora?” “Venerável, esta menina viu outras crianças enfeitadas com ornamentos e guirlandas e por causa disso choraminga: ‘Eu quero uma guirlanda! Eu quero ornamentos!’” “Como podem pessoas pobres como nós pagar por guirlandas e ornamentos?” Pilindavavvha então fez uma guirlanda com punhado de grama seca e se dirigiu para a mãe da criança: “Tome isto e coloque na cabeça da criança.” Ela então fez aquilo, colocando aquela guirlanda feita de grama seca na cabeça daquela criança. Aquela era uma bela e perfeita guirlanda, sua aparência fantástica. Nem mesmo no palácio se encontrava uma guirlanda tão bela quanto aquela.

As pessoas informaram ao Rei Bimbisāra do ocorrido: “Sua majestade, na casa de um certo trabalhador de mosteiro se encontra uma bela guirlanda dourada. Nem mesmo em seu palácio se encontra uma guirlanda tão bela quanto esta. Como será que aquelas pessoas de poucas posses conseguiram tal coisa? Certamente trata-se de algo roubado.” E como resultado o rei Bimbisāra mandou prender aquela família.

Foi então que pela manhã Pilindavaccha se vestiu e, tomando a tigela e o manto externo, foi até aquele vilarejo esmolar alimentos. Conforme ele fazia sua ronda de esmolas no vilarejo ele chegou até a casa onde vivia a família daquele trabalhador. Quando ele lá chegou, ele perguntou aos vizinhos: “Para onde foi a família que vivia nesta casa?”

“Venerável, o rei mandou prender todos eles por causa daquela guirlanda dourada.”

Pilindavaccha foi então até o palácio do Rei Bimbisāra, e lá ele se sentou num assento que havia sido preparado. O Rei Seniya Bimbisāra de Magadha foi então até Pilindavaccha, o homenageou e se sentou a um lado. E então Pilindavaccha disse: “Grande rei, por qual razão você mandou prender aquela família?”

“Venerável, na casa daquele trabalhador de mosteiro se encontrava uma bela guirlanda dourada. Nem mesmo no palácio se encontrava uma guirlanda tão bela quanto aquela. Como será que aquelas pessoas de poucas posses conseguiram tal coisa? Certamente trata-se de algo roubado.”

Pilindavaccha direcionou sua mente para a residência real de Bimbisāra, intencionando a transformar em ouro. E como resultado a construção transformou-se em ouro. Após aquilo ele disse: “Grande rei, como você conseguiu tanto ouro?”

“Venerável, agora eu entendo! Este é um poder supra-humano seu.” E então ele mandou soltar aquela família.

Após aquilo as pessoas passaram a dizer: “Parece que o venerável Pilindavaccha demonstrou para o rei e sua corte uma habilidade supra-humana, um feito milagroso.” Elas se deleitaram com aquilo, adquiriram confiança no venerável Pilindavaccha e passaram a visitá-lo para oferecer cinco tipos de tônicos: ghee, manteiga, óleo, mel e açúcar. E Pilindavaccha já recebia normalmente aqueles cinco tônicos. Dado que ele recebia mais do que precisava, ele passou a ceder tônicos para seus discípulos. E seus discípulos passaram a gozar de uma abundância de tônicos. Após encher e estocar jarras e vasilhas de tônicos, ele passaram a guardar estes em bolsas e sacolas, pendurando estas nas janelas. Os tônicos vazavam e se encontravam por toda a parte, o que resultou numa infestação de ratos. As pessoas que passavam pelo mosteiro e viam aquilo se queixavam e criticavam: “Estes contemplativos Sákya são acumuladores de bens, assim como o rei Bimbisāra de Magadha.”

Os bhikkhus ouviram as queixas e críticas daquelas pessoas, e os bhikkhus de poucos desejos ... se queixaram e criticaram aqueles bhikkhus: “Como podem estes bhikkhus escolher viver em tal abundância?”

Após criticar tais bhikkhus de várias maneiras, aqueles bhikkhus informaram o Abençoado o ocorrido ... “É verdade, bhikkhus, que alguns de vocês vivem em tal abundância?”

“É verdade, mestre.”

O Buda então os repreendeu: “… Como podem estes homens tolos escolher viver em tal abundância? Isto não fará surgir fé naqueles ainda sem fé … E então, bhikkhus, esta regra de treinamento deve ser assim recitada:

Regra final

“Se um bhikkhu recebe tônicos permitidos aos bhikkhus doentes ou indispostos - a saber: ghee, manteiga, óleo, mel e açúcar - estes devem ser guardados e consumidos em até sete dias. Se ele os mantiver por mais do que isso, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia.”

Definições

“Tônicos permitidos aos bhikkhus doentes ou indispostos”: “Ghee”: ghee feito a partir do leite de vaca, leite de cabras, leite de búfalas,ou ghee feito a partir do leite de qualquer animal cuja carne se consome. “Manteiga”: manteiga feita a partir do leite dos mesmos animais. “Óleo”: óleo de semente de gergelim, óleo de semente de mostarda, óleo do mahua indiano, óleo de rícino, óleo de sebo. “Mel”: mel de abelhas. “Açúcar”: feito a partir da cana-de-açúcar.

“Após recebidos, estes devem ser guardados e consumidos em até sete dias.”: eles devem ser usados em no máximo sete dias.

“Se ele os usa depois disso, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia:” A ofensa é cometida no amanhecer do oitavo dia.


E a posse destes deverá ser renunciada e transferida para a Sangha dos bhikkhus, um grupo de bhikkhus ou um determinado bhikkhu. “E, bhikkhus, estes deverão ser renunciados desta maneira:” “… (É expandido como na Regra Nissaggiya 1, com as devidas substituições) … ‘Veneráveis, estes tônicos que eu guardei por mais de sete dias devem ser renunciados. Eu os cedo para a Sangha’. A Sangha deve devolver ... você deve devolver ... Estes tônicos são assim renunciados, e então retornados: ‘Eu devolvo estes tônicos para este venerável.’”

Permutações

Se mais que sete dias se passaram, e ele percebe que mais que sete dias se passaram, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se mais que sete dias se passaram, mas ele não tem certeza, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se mais que sete dias se passaram, mas ele percebe que menos que sete dias se passaram, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia

Se (os tônicos) não foram atribuídos, mas ele os percebe como tendo sido atribuídos, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se (os tônicos) não foram dados, mas ele os percebe como tendo sido dados, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se (os tônicos) não foran perdidos, mas ele os percebe como tendo sido perdidos, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se (os tônicos) não foram destruídos, mas ele os percebe como tendo sido destruídos, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se (os tônicos) não foram consumidos pelo fogo, mas ele os percebe como tendo sido consumidos pelo fogo, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se (os tônicos) não foram roubados, mas ele os percebe como tendo sido roubados, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia.

Após os tônicos renunciados terem sido retornados, eles não devem ser usados no corpo ou consumidos. Estes podem ser usados em lamparinas ou como corantes. Outros bhikkhus podem usar estes em seus corpos, mas não devem consumi-los.

Se menos que sete dias se passaram, mas ele percebe que mais do que sete dias se passaram, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão. Se menos que sete dias se passaram, mas ele não tem certeza, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão. Se menos que sete dias se passaram e ele percebe que menos que sete dias se passaram não há ofensa.

Quando não é uma ofensa

Não há ofensa quando: (os tônicos) são mantidos por até setes dias, são transferidos, dados, perdidos, destruídos, queimados, roubados ou tomados tendo sido confiados a quem toma; se, sem expectativas, os tônicos são dados para um indivíduo não ordenado, ele os obtém de volta, e ele os usa; o indivíduo se encontra louco; ele é o primeiro a cometer a ofensa.


A terceira regra de treinamento — a regra sobre tônicos — se encerra aqui.