COLEÇÃO DAS REGRAS MONÁSTICAS DO BUDISMO THERAVĀDA

O Código de Disciplina Monástica dos Bhikkhus

Regras Nissaggiya 3: Tecido para manto fora de época

Em certa ocasião o Abençoado estava em Savathi no Bosque de Jeta, no Parque de Anathapindika. Naquela época, um bhikkhu havia recebido tecido para a confecção de um manto fora de época. Enquanto ele confeccionava o manto, ele percebeu que não havia pano suficiente para um manto. Ele então estendeu aquele pano e passou a esticá-lo várias vezes.

Enquanto inspecionava as instalações, o Abençoado viu aquele bhikkhu agindo daquela forma. Ele então se aproximou e o perguntou: “O que você está fazendo, bhikkhu?”

“Venerável senhor, recebi tecido para a confecção de um manto fora de época, mas este não é grande o suficiente se fazer um manto. É por essa razão que eu o alongo e estico várias vezes.”

“Você espera receber mais tecido?”

“Sim, mestre”.

Mais tarde, após o Abençoado ter dado um ensinamento e ele se dirigiu aos bhikkhus: “Bhikkhus, eu os permito manter tecido para manto enquanto se espera que mais tecido será recebido.”

Quando souberam que o Abençoado havia feito esta concessão, alguns bhikkhus mantiveram tecido para manto por mais do que um mês, mesmo que fora da época. Eles guardaram o tecido amarrado em um maço, e o penduraram em um varal de bambu.

Enquanto inspecionava as instalações, o Venerável Ānanda viu aquele tecido para manto e ele perguntou aos bhikkhus: “De quem é este tecido para manto?”

“É nosso, ele foi obtido fora de época, e nós o guardamos pois esperamos receber mais.”

“Por quanto tempo vocês já mantiveram este pano?”

“Por mais de um mês.”

Venerável Ānanda se queixou e os criticou: “Como podem esses bhikkhus guardar tecido recebido fora de época por mais de um mês?”

Depois de criticar aqueles bhikkhus em muitos aspectos, o Venerável Ānanda informou ao Abençoado. … “É verdade, bhikkhus, que alguns de vocês mantiveram guardados por mais de um mês tecido recebido fora de época?”

“É verdade, mestre.”

O Buda então os criticou: “… Homens tolos, como puderam vocês manter guardados tecido recebido fora de época por mais de um mês? Isto não fará surgir fé naqueles ainda sem fé … E então, bhikkhus, esta regra de treinamento deve ser assim recitada:

Regra final

“Quando o manto tiver sido terminado, o período de kathina tiver se encerrado e um tecido para manto for oferecido ao bhikkhu fora de época, ele pode aceitar este se assim desejar. Se ele o fizer, ele deve rapidamente confeccionar um manto. Se não houver tecido o suficiente, mas ele espera receber mais, ele deve guardá-lo por no máximo um mês. Se ele guardar aquele tecido recebido por mais de um mês, mesmo se houver expectativa de receber mais tecido, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia.”

Definições

Quando terminada a confecção de seu manto: o bhikkhu fez um manto, ou o tecido para um manto foi perdido, destruído ou queimado; ou ele abandonou sua expectativa de receber mais tecidos para mantos.

Terminado o período de kathina: o período terminou de acordo com uma das oito circunstâncias, ou Sangha dos bhikkhus declarou seu fim, o que vier primeiro.

Tecido para um manto fora de época: um manto oferecido sem que se tenha realizado uma cerimônia kathina, ou seja, oferecido durante os onze meses (fora do período de kathina); um manto oferecido com a realização de uma cerimônia kathina, mas disponibilizado durante o período de sete meses (fora do vassa e do período de kathina); ou oferecido na época, mas atribuído como fora de época.

Oferecido: é oferecido por uma Sangha de bhikkhus, por um grupo de bhikkhus, por familiares, por amigos, ou obtido ou a partir de trapos, ou pelo bhikkhu através de seus próprios meios.

Se ele assim desejar: se for seu desejo ele pode receber o manto (ou o tecido para um manto).

Se ele o receber, ele deve rapidamente confeccionar um manto: o manto deve ser feito dentro de um prazo de dez dias.

Se não houver tecido o suficiente: constata-se que não há tecido suficiente quando se tenta confeccionar um manto.

Ele deve guardá-lo por no máximo um mês: por um prazo de até um mês ele pode manter aquele tecido consigo.

Ele visa receber mais: ele tem o intuito de conseguir o montante de tecido que falta.

Ele tem a expectativa de receber mais tecido: ele espera que o tecido que falta será oferecido ou por uma Sangha de bhikkhus, ou por um grupo de bhikkhus, ou por familiares, ou por amigos, ou obtido ou a partir de trapos, ou através de seus próprios meios.

Se ele guardar aquele tecido recebido por mais de um mês, mesmo se houver expectativa de receber mais tecido:

Se ele recebe o tecido para um manto faltante e esperado no mesmo dia em que ele recebeu o tecido para um manto original, o manto deve ser confeccionado dentro de um prazo de dez dias. Se ele recebe o tecido para um manto faltante e esperado um dia após ele ter recebido o tecido para um manto original, o manto deve ser confeccionado dentro de um prazo de dez dias. Se ele recebe o tecido para um manto faltante e esperado dois dias após … vinte dias após ele ter recebido o tecido para um manto original, o manto deve ser confeccionado dentro de um prazo de dez dias. Se ele recebe o tecido para um manto faltante e esperado vinte e um dias após ele ter recebido o tecido para um manto original, o manto deve ser confeccionado dentro de um prazo de nove dias. … Se ele recebe o tecido para um manto faltante e esperado vinte e nove dias após ele ter recebido o tecido para um manto original, o manto deve ser confeccionado dentro de um prazo de um dia. Se ele recebe o tecido para um manto faltante e esperado trinta dias após ele ter recebido o tecido para um manto original, este deve ser atribuído, transferido para a comunidade ou cedido para outrem naquele mesmo dia. Se ele assim não o fizer, ele comete no amanhecer do trigésimo primeiro dia uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. A posse do tecido para um manto deverá ser renunciada e transferida para a Sangha dos bhikkhus, um grupo de bhikkhus ou um determinado bhikkhu.

“E, bhikkhus, este deverá ser renunciado desta maneira: … (É expandido como na Regra Nissaggiya 1, com as devidas substituições) … Este tecido para manto recebido fora de época é renunciado, e então retornado: ‘Eu devolvo este manto para este venerável.’”

Se ele recebe o tecido para manto esperado, mas este é diferente do tecido para manto originalmente recebido e ainda há dias restantes até o fim do prazo de trinta dias, ele não tem que fazer um manto, se ele assim decidir.

Permutações

Se mais que trinta dias se passaram, e ele percebe que mais que trinta dias se passaram, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se mais que trinta dias se passaram, mas ele não tem certeza, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se mais que trinta dias se passaram, mas ele percebe que menos que trinta dias se passaram, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia.

Se (o tecido para manto) não foi atribuído, mas ele o percebe como tendo sido atribuído, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se (o tecido para manto) não foi transferido, mas ele o percebe como tendo sido transferido, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se (o tecido para manto) não foi dado, mas ele o percebe como tendo sido dado, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se (o tecido para manto) não foi perdido, mas ele o percebe como tendo sido perdido, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se (o tecido para manto) não foi destruído, mas ele o percebe como tendo sido destruído, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se (o tecido para manto) não foi queimado, mas ele o percebe como tendo sido queimado, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se (o tecido para manto) não foi roubado, mas ele o percebe como tendo sido roubado, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia.

Se ele usa um manto que deveria ter sido renunciado sem primeiro abrir mão deste, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão. Se menos que dez dias se passaram, mas ele percebe que mais do que dez dias se passaram, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão. Se menos que dez dias se passaram, mas ele não tem certeza, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão. Se menos que dez dias se passaram, e ele percebe como tendo se passado menos que dez dias, não há ofensa.

Quando não é uma ofensa

Não há ofensa quando: o prazo de trinta dias não foi ultrapassado, o tecido para manto é transferido, dado, perdido, destruído, queimado, roubado ou é tomado tendo sido confiado a quem toma; o indivíduo se encontra louco; ele é o primeiro a cometer a ofensa.

A terceira regra nissaggiya—relacionada a tecidos recebidos fora de época—se encerra aqui.