COLEÇÃO DAS REGRAS MONÁSTICAS DO BUDISMO THERAVĀDA

O Código de Disciplina Monástica dos Bhikkhus

Regras Nissaggiya 6: Pedir não havendo parentesco

História de origem

Primeiro sub-relato

Em certa ocasião o Abençoado estava em Savathi no Bosque de Jeta, no Parque de Anathapindika. Naquela época, o Venerável Upananda, o Sákya, era conhecido por sua habilidade em dar ensinamentos. Certa vez, o filho de um rico comerciante se aproximou do Venerável Upananda, o homenageou e se sentou a um lado. Estando ali o Venerável Upananda então o instruiu, inspirou e alegrou com um ensinamento. Após isto, o filho do comerciante disse:

“Venerável, por favor, diga-me do que você precisa. Eu posso oferecer mantos, alimentos, alojamento e medicamentos.”

“Se você quiser me dar alguma coisa, então me dê um de seus mantos.”

“Venerável, é vergonhoso para o filho de uma boa família andar por aí vestindo apenas um manto. Por favor, espere até eu voltar para minha casa. Então lhe mandarei este manto ou um outro melhor.”

Uma segunda vez e uma terceira vez o Venerável Upananda disse a mesma coisa ao filho do comerciante, obtendo a mesma resposta. Ele então disse: “Qual o ponto de oferecer se você não quer dar?”

Então, depois de ter sido pressionado daquela forma pelo Venerável Upananda o filho do comerciante lhe deu um de seus mantos e partiu. As pessoas o questionaram: “Por que o senhor anda por aí apenas vestindo um manto?” E ele então lhes contou o ocorrido. As pessoas se queixaram e criticaram: “Estes contemplativos Sákya têm grandes desejos; eles não se contentam. Até mesmo fazer-lhes uma oferta adequada é difícil. Como puderam estes tomar o manto daquele filho de comerciante após este fazer uma oferta adequada?”

Os bhikkhus ouviram as queixas e a crítica dessas pessoas e os bhikkhus de poucos desejos … se queixaram e criticaram Upananda da mesma forma.

Eles então informaram o Abençoado do ocorrido … e ele questionou Upananda: “É verdade, Upananda, que você agiu de tal forma?”

“É verdade, mestre.”

“Aquele filho de comerciante é um parente seu?”

“Não, mestre.”

“Homem tolo, pessoas que não são parentes não sabem discernir o que é apropriado do que não é no que diz respeito a como lidar um com outro. E mesmo assim você pediu para si o manto daquele filho de comerciante. Isto não fará surgir fé naqueles ainda sem fé … E então, bhikkhus, esta regra de treinamento deve ser assim recitada:

Regra Preliminar

“Se um bhikkhu recebe um manto (ou tecido para manto) de um ou uma chefe de família que não seja seu parente, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia.”

E desta forma o Abençoado estabeleceu esta regra de formação para os bhikkhus.

Segundo sub-relato

Após isto, alguns bhikkhus que foram assaltados por bandidos enquanto viajavam pela via principal que ia de Sāketa para Sāvatthī—sabendo que o Buda havia estabelecido uma regra de treinamento sobre pedir mantos e temendo cometer uma ofensa—não pediram por novos mantos. Sendo assim, eles caminharam nus até Sāvatthī e lá chegando foram até os bhikkhus residentes os homenagear. Os bhikkhus então disseram:

“Estes contemplativos Ājīvaka são boas pessoas, eles prestam reverência aos bhikkhus.”

“Nós não somos Ājīvakas; nós somos bhikkhus!”

Os bhikkhus então disseram ao Venerável Upāli: “Upāli, por favor investigue.”

Os bhikkhus que se encontravam nus contaram então ao Venerável Upāli o que tinha acontecido, e ele então disse aos Bhikkhus: “Estes são bhikkhus. Dê-lhes mantos.”

Os bhikkhus de poucos desejos … se queixaram e criticaram: “Como puderam estes bhikkhus andar por aí nus? Não deveriam eles terem se coberto ao menos com grama e folhas?”

Após criticar aqueles bhikkhus de várias maneiras, os bhikkhus informaram o Abençoado o ocorrido. Após isto, o Abençoado deu um ensinamento e se dirigindo ao bhikkhus em seguida: “Bhikkhus, se seus mantos forem roubados ou destruídos, eu lhes permito pedir por novos mantos a um chefe de família que não seja seu parente. Ou então, assim que vocês chegarem no mosteiro mais próximo, se a Sangha ali tiver um um manto sob posse compartilhada—ou um lençol, ou um tapete, ou uma fronha—vocês devem tomar e vestir este, pensando, ‘Quando eu receber um manto, eu devolverei isto.’ Se não houver ali nenhuma dessas coisas, se cubram então com grama e folhas antes de seguir viagem. Um bhikkhu não deve continuar sua viagem enquanto ainda nu. Se ele o faz, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão. E então, bhikkhus, esta regra de treinamento deve ser assim recitada:

Regra final

“Se um bhikkhu recebe um manto (ou tecido para manto) de um ou uma chefe de família que não seja seu parente, a não ser que ele tenha um motivo adequado para isto, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Os motivos adequados para pedir são: seus mantos foram roubados ou destruídos.”

Definições

Um: refere-se a qualquer indivíduo, de tal tipo, de tal ocupação, de tal status social, de tal nome, de tal família, de tal conduta, de tal comportamento, de tal associação, seja de muita ou pouca idade, ou não pertencendo a nenhum grupo específico … Bhikkhu: … neste caso, um bhikkhu é alguém que tenha recebido a ordenação completa na Sangha de bhikkhus através de um procedimento formal, consistindo de três moções e três proclamações, que é irrefutável e completo.

Que não seja seu parente: sem nenhum parentesco, não se trata de um parente próximo, este não compartilha nenhum grau de parentesco por um número de sete gerações tanto por parte de mãe quanto por parte de pai.

Um chefe de família: qualquer homem que viva em família, ou que não seja um contemplativo.

Uma chefe de família: qualquer mulher que viva em família, ou que não seja uma contemplativa.

Um manto: um dos seis tipos de mantos—de linho, de algodão, de seda, de lã, de juta, de cânhamo—cuja dimensão não seja menor que a requerida para que seja compartilhado.

A não ser que ele tenha um motivo adequado para isto: exceto quando for o momento certo e houver um motivo adequado.

Seus mantos foram roubados: o manto de um bhikkhu pode ser tomado deste por reis, bandidos, vigaristas ou qualquer outro tipo de indíviduo.

Seus mantos foram destruídos: o manto de um bhikkhu pode ser queimado pelo fogo, levado pela água, comido por ratos ou cupins, ou desgastado pelo uso.

No ato de pedir, a não ser que ele tenha um motivo adequado para isto, ele cometeu uma ofensa dukkata, de transgressão. Quando ele recebe o manto, a posse do manto—ou o tecido para um manto—deverá ser renunciada e transferida para a Sangha dos bhikkhus, um grupo de bhikkhus ou um determinado bhikkhu.

“E, bhikkhus, este deverá ser renunciado desta maneira:” “… (É expandido como na Regra Nissaggiya 1, com as devidas substituições) … Este manto é renunciado, e então retornado: ‘Eu devolvo este manto para este venerável.’”

Permutações

Se a pessoa não é sua parente, o bhikkhu percebe esta como não sendo sua parente, e ele pede por um manto sem ter uma razão adequada, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se a pessoa não é sua parente e o bhikkhu não tem certeza, e ele pede por um manto sem ter uma razão adequada, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia. Se a pessoa não é sua parente e o bhikkhu a percebe como sendo sua parente, e ele pede por um manto sem ter uma razão adequada, ele comete uma ofensa nissaggiya pacittiya, que implica a confissão com renúncia.

Se a pessoa é sua parente, mas o bhikkhu percebe esta como não o sendo, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão. Se a pessoa é sua parente, mas o bhikkhu não tem certeza, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão. Se a pessoa é sua parente, e o bhikkhu percebe esta como o sendo, não há ofensa.

Quando não é uma ofensa

Não há ofensa quando: ele tem um motivo adequado; ele pede a um parente; e ele pede para alguém que lhe fez uma oferta; ele pede em nome de outrem; ele obtém por meio de meio de seus próprios recursos; indivíduo se encontra louco; ele é o primeiro a cometer a ofensa.

A sexta regra nissaggiya—relacionada a pedir mantos não havendo parentesco—se encerra aqui.