COLEÇÃO DAS REGRAS MONÁSTICAS DO BUDISMO THERAVĀDA

O Código de Disciplina Monástica dos Bhikkhus

Regras Saṅghādisesā 10: Cisma na Sangha

História de origem

Certa ocasião, o Abençoado estava em Rājagaha, no Bambual, no Santuário dos Esquilos. Naquela ocasião, Devadatta foi até Kokālika, Kaṭamodakatissaka, Khaṇḍadeviyā-putta e Samuddadatta, e lhes disse: “Venha, amigos, vamos criar um cisma na Sangha de bhikkhus do contemplativo Gotama, uma interrupção no ensinamento.”

Kokālika então disse para Devadatta: “O contemplativo Gotama tem grande poder e força espiritual. Como faremos isso?”

“Bem, vamos até o contemplativo Gotama lhe solicitar cinco coisas: ‘Venerável senhor, de muitas maneiras, o Abençoado elogia se ter poucos desejos, o contentamento, a obliteração, as práticas ascéticas, a serenidade, a diminuição das impurezas, e o estímulo da energia. E há cinco coisas que levam ou apontam para exatamente isso. Desta forma, seria bom Venerável Senhor que:

  1. Os bhikkhus passassem a habitar somente florestas, de modo que aqueles que vivessem numa área habitada cometeriam uma ofensa;
  2. Os bhikkhus passassem a alimentar-se apenas de comida esmolada, de modo que aqueles que aceitassem convites para refeições cometeriam uma ofensa;
  3. Os bhikkhus passassem a vestir-se apenas com mantos feitos com retalhos, de modo que aqueles que aceitassem um manto oferecido por um discípulo leigo cometeriam uma ofensa;
  4. Os bhikkhus passassem a ter apenas como moradia o pé de uma árvore, de modo que aqueles que vivessem sob um teto cometeriam uma ofensa;
  5. Os bhikkhus passassem a recusar peixe e carne, de modo que aqueles que se alimentassem de peixe ou carne cometeriam uma ofensa.’

“O contemplativo Gotama não permitirá isso, e assim seremos capazes de conquistar as pessoas com estes cinco pontos.”

E Kokālika então disse: “Dado que as pessoas têm fé na austeridade, é possível criar um cisma na Sangha de bhikkhus com estes cinco pontos.”

Devadatta e seus seguidores foram então até o Abençoado, o homenagearam e sentaram a um lado. Devadatta fez sua solicitação e o Abençoado então respondeu: “Não, Devadatta. Aqueles que assim desejarem podem habitar florestas, e aqueles que assim desejarem podem viver numa área habitada. Aqueles que assim desejarem podem alimentar-se de comida esmolada, e aqueles que assim desejarem podem aceitar convites para refeições. Aqueles que assim desejarem podem vestir-se com mantos feitos com retalhos, e aqueles que assim desejarem podem aceitar mantos oferecidos por discípulos leigos. Eu autorizo ter como moradia o pé de uma árvore nos oito meses entre os retiros das chuvas, bem como a ingestão de peixe e carne que são puros em três aspectos: não foi visto, ouvido ou se suspeita que o animal tenha sido sacrificado para o bhikkhu.”

Devadatta então pensou: “O Abençoado não dá permissão para este cinco pontos”, e ele então ficou eufórico e exultante. Após isto, ele levantou-se do seu assento e depois de homenagear o Abençoado, mantendo-o à sua direita, partiu com seus seguidores.

Após isto Devadatta seguiu para Rājagaha e lá conquistou as pessoas com os cinco pontos, dizendo, “O contemplativo Gotama não concorda com estes, mas nós praticamos em conformidade com estes.”

As pessoas tolas e de pouca fé e confiança disseram: “Estes contemplativos Sákya praticam o ascetismo e buscam a eliminação de impurezas. Mas o contemplativo Gotama vive no luxo e busca a abundância.” Mas as pessoas sábias e dotadas de fé e confiança se queixaram e criticaram Devadatta: “Como pôde Devadatta agir para criar um cisma na Sangha de bhikkhus do Abençoado, uma interrupção no ensinamento?”

Os bhikkhus ouviram a crítica dessas pessoas e os bhikkhus de poucos desejos … se queixaram e criticaram Devadatta da mesma forma.

Eles então informaram o Abençoado do ocorrido … e ele questionou Devadatta: “É verdade, Devadatta, que você está tentando causar um cisma na Sangha, uma interrupção no ensinamento?”

“É verdade, Abençoado.”

O Abençoado então o repreendeu: “… Homem insensato, como pôde você tentar causar um cisma na Sangha, uma interrupção no ensinamento? Isto não fará surgir fé naqueles ainda sem fé …” E então, bhikkhus, esta regra de treinamento deve ser assim recitada:

Regra final

“Se um bhikkhu tenta causar um cisma na Sangha de bhikkhus unida ou insiste mencionando uma acusação conducente ao cisma—os bhikkhus devem lhe dizer: ‘Venerável, não tente causar um cisma na Sangha de bhikkhus unida e tampouco insista numa acusação de ofensa conducente ao cisma. Reconcilie-se com a Sangha, pois uma Sangha unida—em concórdia, harmonia; sem disputas, com uma única recitação—vive em conforto.’ Se após isto tal bhikkhu continua como antes, os bhikkhus devem repreendê-lo formalmente três vezes. Se ele abandona sua tentativa, isso é bom. Se persiste na sua tentativa de um cisma, ele comete uma ofensa sanghadisesa.”

Definições

Um: refere-se a qualquer indivíduo, de tal tipo, de tal ocupação, de tal status social, de tal nome, de tal família, de tal conduta, de tal comportamento, de tal associação, seja de muita ou pouca idade, ou não pertencendo a nenhum grupo específico. … Bhikkhu: neste caso, um bhikkhu é alguém que tenha recebido a ordenação completa na Sangha de bhikkhus através de um procedimento formal, consistindo de três moções e três proclamações, que é irrefutável e completo.

Uma Sangha de bhikkhus unida: um grupo de contemplativos que vivem juntos, compartilham de uma mesma área da demarcação monástica, uma sima.

Tenta causar um cisma: tendo o pensamento, “O que pode ser feito para que estes se tornem vários, separados, divididos?” ele procura por uma facção e forma um grupo.

Acusação conducente ao cisma: as dezoito razões ou motivos para criar um cisma.

Mencionando: tendo adotado uma acusação, ele a proclama.

Se […] insiste em: ele não pára.

Ele: o bhikkhu que tenta causar um cisma na Sangha de bhikkhus.

Os bhikkhus:

Se quaisquer outros bhikkhus tenham visto ou ouvido falar sobre a questão. Eles devem dizer para o bhikkhu que tenta causar o cisma, “Venerável, não tente causar um cisma na Sangha de bhikkhus unida ou insista mencionando uma acusação conducente ao cisma. Reconcilie-se com a Sangha, pois uma Sangha unida—em concórdia, harmonia; sem disputas, com uma única recitação—vive em conforto.” E devem dizer isto uma segunda e uma terceira vez. Se ele abandona sua tentativa, isso é bom. Se ele não abandona sua tentativa, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão. Aqueles bhikkhus que ouvirem falar sobre a questão e nada disserem cometem também uma ofensa dukkata.

Este bhikkhu, mesmo que tenha de ser arrastado para o meio da Sangha, deve ser assim abordado: “Venerável, não tente causar um cisma na Sangha de bhikkhus unida, ou insista mencionando uma acusação conducente ao cisma. Reconcilie-se com a Sangha, pois uma Sangha unida—em concórdia, harmonia; sem disputas, com uma única recitação—vive em conforto.” Se ele abandona sua tentativa, isso é bom. Se ele não abandona sua tentativa, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão.

Devem lhe dizer:

“E, bhikkhus, ele deve ser repreendido de acordo com o seguinte processo:” Um bhikkhu experiente e competente deve informar a Sangha:

‘Veneráveis, possa a Sangha me escutar. Tal e tal bhikkhu tenta causar um cisma na Sangha de bhikkhus. Ele não abandona a sua tentativa. Se conveniente para a Sangha, esta deve advertê-lo a não prosseguir. Esta é a moção.

“‘Veneráveis, possa a Sangha me escutar. Tal e tal bhikkhu tenta causar um cisma na Sangha de bhikkhus. Ele não abandona a sua tentativa. A Sangha o adverte a não prosseguir. Aqueles que aprovarem advertê-lo a não prosseguir devem permanecer em silêncio. Aqueles que não aprovarem devem dizê-lo.

“‘Uma segunda vez … Uma terceira vez eu lhes falo sobre este assunto: Veneráveis, possa a Sangha me escutar. Tal e tal bhikkhu tenta causar um cisma na Sangha de bhikkhus. Ele não abandona a sua tentativa. A Sangha o adverte a não prosseguir. Aqueles que aprovarem advertê-lo a não prosseguir devem permanecer em silêncio. Aqueles que não aprovarem devem dizê-lo.

“‘Tal e tal bhikkhu é advertido pela Sangha a não prosseguir com sua tentativa de causar um cisma na Sangha de bhikkhus. A Sangha aprova e portanto não se pronuncia. Assim me lembrarei.’”

Se o bhikku não abandona sua tentativa após a moção, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão. Após cada uma das duas proclamações, ele comete uma ofensa thullaccaya, uma ofensa grave. Terminada a última proclamação, ele comete uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão. Tendo cometido a ofensa sanghadisesa, ambas as ofensas dukkata e thullaccaya são anuladas.

Uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão: apenas a sangha dos bhikkhus—e não um grupo de bhikkhus ou um bhikkhu apenas—pode declarar a penitência devida, suspender e estabelecer a reinclusão na sangha. Portanto é dito que se comete uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão, este é o nome e definição desta classe de ofensas. Desta forma, igualmente, isto é o que se entende por cometer uma “ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão.”

Permutações

Se o procedimento for legítimo, ele o percebe como sendo legítimo, mas ele não abandona sua tentativa, ele comete uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão.

Se o procedimento for legítimo, ele não tem certeza sobre sua legitimidade, e ele não abandona sua tentativa, ele comete uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão.

Se o procedimento for legítimo, ele o percebe como sendo ilegítimo, e ele não abandona sua tentativa, ele comete uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão.

Se o procedimento for ilegítimo, mas ele o percebe como legítimo, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão.

Se o procedimento for ilegítimo, ele não tem certeza sobre sua legitimidade, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão.

Se o procedimento for ilegítimo, ele o percebe como sendo ilegítimo, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão.

Quando não é uma ofensa

Não há ofensa quando: ele não é advertido; se ele abandona sua tentativa; o indivíduo se encontra louco; o indivíduo se encontra desequilibrado; o indivíduo se encontra tomado pela dor; ele é o primeiro a cometer a ofensa.

A décima regra de treinamento sanghadisesa—sobre tentar causar um cisma na Sangha—se encerra aqui.