COLEÇÃO DAS REGRAS MONÁSTICAS DO BUDISMO THERAVĀDA

O Código de Disciplina Monástica dos Bhikkhus

Regras Saṅghādisesā 3: Fala lasciva, abusiva ou obscena

História de origem

Certa ocasião, o Abençoado estava em Savatthi, no Bosque de Jeta, no Parque de Anathapindika. Naquela ocasião, o Venerável Udāyī residia num local desabitado numa linda moradia. Foi então que um grupo de mulheres veio até o local conferir as habitações monásticas. Elas se aproximaram do Venerável Udāyī e disseram:

“Venerável, gostaríamos de conferir a sua moradia.”

Então, após mostrar sua habitação, o Venerável Udāyī dirigiu palavras lascivas para aquelas mesmas mulheres - falando de forma abusiva e obscena - com elogios e deboches sobre as partes íntimas destas, solicitando, implorando, perguntando, indagando, descrevendo, opinando e abusando. Aquelas que eram devassas e sem vergonha flertaram com o Venerável Udāyī, berrando com ele, rindo com ele e se divertindo com ele. Mas aquelas que tinham escrúpulos e senso de vergonha deixaram o local e em seguida foram queixar-se com os bhikkhus: “Veneráveis, isto não é apropriado, não é adequado. Não gostaríamos de ouvir o que ouvimos de nossos maridos, muito menos do Venerável Udāyī.”

Os bhikkhus de poucos desejos… se queixaram e o criticaram: “Como pôde o Venerável Udāyī falar de forma abusiva e obscena com aquelas mulheres?”

Eles repreenderam o Venerável Udāyī em muitos aspectos e informaram ao Abençoado o ocorrido. O Abençoado então convocou a sangha dos bhikkhus e questionou o Venerável Udāyī:

“É verdade, Udāyī, que você dirigiu palavras lascivas para aquelas mulheres?”

“É verdade, mestre.”

O Abençoado então o repreendeu: “Não é adequado, homem tolo, não é conveniente, não é apropriado, não é digno de um contemplativo, não é correto, não deve ser feito. Como pôde você ter dirigido palavras lascivas - falado de forma abusiva e obscena - para aquelas mulheres? Não é o caso que eu ensinei de várias formas objetivando o fim do desejo e não o desejo; objetivando a liberdade da escravidão, e não a permanência no cativeiro; objetivando o desapego, e não o apego? Tendo eu desta forma ensinado, como pôde você ter se entregado ao desejo, ao cativeiro e ao apego? Não é o caso que eu ensinei de diversas formas tendo como o objetivo o abandono do desejo, o fim da presunção, a remoção de sede, o desenraizamento do apego, o interrompimento do ciclo de renascimentos, o fim do desejo, o desaparecimento, a cessação e a extinção do sofrimento? Não é o caso que eu de várias maneiras declarei o abandono dos prazeres sensuais, o pleno entendimento da percepção dos prazeres sensuais, a eliminação da sede pelos prazeres sensuais, a cessação dos pensamentos acerca de objetos de prazer sensual, o acalmar da febre dos prazeres sensuais? Homem tolo, isto não fará surgir fé naqueles ainda sem fé, nem tampouco fará aumentar a fé daqueles que já a têm, mas isso dificultará o surgimento da fé naqueles ainda sem fé, e fará com que aqueles com fé mudem suas mentes.” Então, depois de repreender aquele bhikkhu de muitas maneiras, por ser difícil de suportar… O Abençoado disse: “E então, bhikkhus, esta regra de treinamento deve ser assim recitada:

Regra final

“Um bhikkhu que, tomado pelo desejo e com a mente alterada, dirigir palavras lascivas para uma mulher, como um jovem diria a uma jovem aludindo a uma relação sexual, comete uma ofensa de sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão”.

Definições

Um: refere-se a qualquer indivíduo, de tal tipo, de tal ocupação, de tal status social, de tal nome, de tal família, de tal conduta, de tal comportamento, de tal associação, seja de muita ou pouca idade, ou não pertencendo a nenhum grupo específico. . . . Bhikkhu: . . . neste caso, um bhikkhu é alguém que tenha recebido a ordenação completa na Sangha de bhikkhus através de um procedimento formal, consistindo de três moções e três proclamações, que é irrefutável e completo.

Tomado pelo desejo: desejoso, ávido, apaixonado.

Com a mente alterada: uma mente pode ser alterada, distorcida pelo desejo, pela raiva, ou pela delusão. Neste caso se refere da mente alterada ou distorcida pelo desejo.

Uma mulher: uma mulher. Não trata-se aqui de uma yakkha mulher, uma fantasma, ou uma fêmea de espécie animal. Ela compreende e é capaz de discernir fala respeitosa da fala maldosa, o que é imoral do que não é obsceno.

Palavras lascivas: fala lasciva, abusiva ou obscena relacionada com as partes íntimas - ânus e vagina - ou com atos sexuais.

Se dirige: agindo erroneamente.

Como um jovem diria a uma jovem: como um homem imaturo diria a uma mulher imatura, um rapaz a uma garota, um homem desfrutando dos prazeres sensuais a mulher desfrutando dos prazeres sensuais.

Aludindo a uma relação sexual: fazendo referência ao ato sexual.

Uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão: apenas a sangha dos bhikkhus - e não um grupo de bhikkhus ou um bhikkhu apenas - pode declarar a penitência devida, suspender e estabelecer a reinclusão na sangha. Portanto é dito que se comete uma uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão, este é o nome e definição desta classe de ofensas. Desta forma, igualmente, isto é o que se entende por cometer uma “ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão”.

Permutações

Resumo

Fazendo referência às duas partes íntimas, ele elogia, debocha, solicita, implora, pergunta, indaga, descreve, opina e abusa.

Outras definições

Elogia: exalta, louva, elogia as duas partes íntimas.

Debocha: despreza, insulta, ofende as duas partes íntimas.

Solicita: ele diz, “Dê-me; você deveria me oferecer.”

Implora: ele diz, “Quando você irá agradar sua mãe? Quando você irá agradar seu pai? Quando você irá agradar os deuses? Quando haverá uma boa oportunidade, uma boa hora, um bom momento? Quando terei relações sexuais com você?”

Pergunta: ele diz, “Como você faz seu marido? Como você faz com seu amado?”

Indaga: ele diz, “É assim que você faz seu marido? É assim que você faz com seu amado?”

Descreve: tendo sido perguntado, ele diz: “Faça desta forma. Quando você assim fizer, você será querida, agradará ao seu marido.”

Opina: não tendo sido perguntado, ele diz: “Faça desta forma. Quando você assim fizer, você será querida, agradará ao seu marido.”

Abusa: ele diz, “Lhe faltam traços sexuais, seus traços sexuais são imperfeitas, você não menstrua, você menstrua continuamente, você usa o pano de menstruação continuamente, você está pingando, você é deformada, você é uma paṇḍaka mulher, você tem traços masculinos, seus traços sexuais são misturados, você é hermafrodita.”

Exposição

Há uma mulher, ele a percebe como uma mulher e tem desejo. Se o bhikkhu, referindo-se a suas partes íntimas, elogia, debocha, solicita, implora, pergunta, indaga, descreve, opina e abusa, ele comete uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão. É expandido como no Bu-Ss.2.3.1….

Há duas mulheres, ele percebe ambas como mulheres e tem desejo. Se o bhikkhu, referindo-se a suas partes íntimas, elogia, debocha, solicita, implora, pergunta, indaga, descreve, opina e abusa, ele comete uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão. É expandido como no Bu-Ss.2.3.2….

Há uma mulher e um paṇḍaka, mas ele percebe ambas como mulheres e tem desejo. Se o bhikkhu, referindo-se a suas partes íntimas, elogia, debocha, solicita, implora, pergunta, indaga, descreve, opina e abusa, ele comete uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão e uma ofensa dukkata, de transgressão. É expandido como no Bu-Ss.2.3.3….

Há uma mulher, ele a percebe como uma mulher e tem desejo. Se o bhikkhu, fazendo referência a qualquer parte do corpo desta abaixo do ombro e acima dos joelhos - que não as partes íntimas - elogia, debocha, solicita, implora, pergunta, indaga, descreve, opina e abusa, ele comete uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão.

Há duas mulheres, ele percebe ambas como mulheres e tem desejo. Se o bhikkhu, fazendo referência a qualquer parte do corpo destas abaixo do ombro e acima dos joelhos - que não as partes íntimas - elogia, debocha, solicita, implora, pergunta, indaga, descreve, opina e abusa, ele comete duas ofensas sanghadisesa, sérias e que envolvem a suspensão.

Há uma mulher e um paṇḍaka, mas ele percebe ambos como mulheres e tem desejo. Se o bhikkhu, fazendo referência a qualquer parte do corpo destes abaixo do ombro e acima dos joelhos - que não as partes íntimas - elogia, debocha, solicita, implora, pergunta, indaga, descreve, opina e abusa, ele comete uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão e uma ofensa dukkata, de transgressão.

Há uma mulher, ele a percebe como uma mulher e tem desejo. Se o bhikkhu, fazendo referência a qualquer parte do corpo desta acima do ombro ou abaixo dos joelhos, elogia, debocha, solicita, implora, pergunta, indaga, descreve, opina e abusa, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão.

Há duas mulheres, ele percebe ambas como mulheres e tem desejo. Se o bhikkhu, fazendo referência a qualquer parte do corpo destas acima do ombro ou abaixo dos joelhos, elogia, debocha, solicita, implora, pergunta, indaga, descreve, opina e abusa, ele comete duas ofensas dukkata, de transgressão.

Há uma mulher e um paṇḍaka, mas ele percebe ambos como mulheres e tem desejo. Se o bhikkhu, fazendo referência a qualquer parte do corpo destes acima do ombro ou abaixo dos joelhos, elogia, debocha, solicita, implora, pergunta, indaga, descreve, opina e abusa, ele comete duas ofensas dukkata, de transgressão.

Há uma mulher, ele a percebe como uma mulher e tem desejo. Se o bhikkhu, referindo-se a qualquer coisa ligada ao corpo desta, elogia, debocha, solicita, implora, pergunta, indaga, descreve, opina e abusa, ele comete uma ofensa dukkata, de transgressão.

Há duas mulheres, ele percebe ambas como mulheres e tem desejo. Se o bhikkhu, referindo-se a qualquer coisa ligada ao corpo destas, elogia, debocha, solicita, implora, pergunta, indaga, descreve, opina e abusa, ele comete duas ofensas dukkata, de transgressão.

Há uma mulher e um paṇḍaka, mas ele percebe ambos como mulheres e tem desejo. Se o bhikkhu, referindo-se a qualquer coisa ligada ao corpo destes, elogia, debocha, solicita, implora, pergunta, indaga, descreve, opina e abusa, ele comete duas ofensas dukkata, de transgressão.

Quando não há ofensa

Não há ofensa quando: o objetivo é apontar o que é hábil; o objetivo é dar um ensinamento; o objetivo é instruir; o indivíduo se encontra louco; ele é o primeiro a cometer a ofensa.

Casos e suas respectivas decisões

Lista para memorização

Vermelho, grosso, espesso,
Crespo, longo, campo semeado;
Com relação ao fim de uma trilha,
Fé, com um presente, com o trabalho.

Detalhes do casos

Certa vez, uma mulher usava um xale recém tingido. Um bhikkhu, tendo desejo, lhe disse: “Irmã, esta coisa vermelha é sua?”

Ela não entendeu e respondeu: “Sim, Venerável, este é um xale tingido recentemente.”

Ele tornou-se ansioso e pensou: “O mestre estabeleceu-se uma regra de formação. Será que eu cometi uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão?” Ele informou ao Abençoado, e este disse:

“Não houve uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão, mas sim uma ofensa dukkata, de transgressão.”

Certa vez, uma mulher usava um xale crespo… “Irmã, este cabelo crespo é seu?”

Ela não entendeu e respondeu: “Sim, Venerável, este é um xale crespo.”

Ele tornou-se ansioso… “Não houve uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão, mas sim uma ofensa dukkata, de transgressão.”

Certa vez, uma mulher usava um xale de tecido recentemente… “Irmã, este cabelo grosso é seu?”

Ela não entendeu e respondeu: “Sim, Venerável, este é um xale tecido recentemente.”

Ele tornou-se ansioso… “Não houve uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão, mas sim uma ofensa dukkata, de transgressão.”

Certa vez, uma mulher usava um xale rústico… “Irmã, este cabelo rústico é seu?”…

“Venerável, este é um xale rústico.”

Ele tornou-se ansioso… “Não houve uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão, mas sim uma ofensa dukkata, de transgressão.”

Certa vez, uma mulher vestia um manto… “Irmã, este cabelo comprido é seu?”

Ele tornou-se ansioso… “Não houve uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão, mas sim uma ofensa dukkata, de transgressão.”

Certa vez, uma mulher estava voltando depois de ter semeado um campo. Um bhikkhu, tendo desejo, lhe disse: “Semeaste, irmã?”

Ela não entendeu e respondeu: “Sim, Venerável, mas os sulcos ainda não foram fechados.”

Ele tornou-se ansioso… “Não houve uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão, mas sim uma ofensa dukkata, de transgressão.”

Certa vez, um bhikkhu viu uma contemplativa paribbājika vindo na sua direção, e tendo desejo, ele disse a esta: “Irmã, é certo esperar um fim para esta trilha?”

Ela não entendeu e respondeu: “Sim, siga adiante.”

Ele tornou-se ansioso… “Não houve uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão, mas sim uma ofensa de thullaccaya, uma ofensa grave.”

Certa vez, um bhikkhu, tendo desejo, disse a uma mulher: “Você tem fé, irmã, mas você não nos dá o que você dá ao seu marido.”

“A que você se refere, venerável?”

“Relações sexuais”.

Ele tornou-se ansioso… “Há uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão”.

Certa vez, um bhikkhu, tendo desejo, disse a uma mulher: “Você tem fé, irmã, mas não nos oferece o mais elevado dos presentes.”

“Qual seria o mais elevado dos presentes, venerável?”

“Relações sexuais”.

Ele tornou-se ansioso… “Há uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão”.

Certa vez, uma mulher fazia algum trabalho. Um bhikkhu, tendo desejo, lhe disse: “Fique em pé, irmã, eu trabalho.”… “Sente-se, irmã, eu trabalho”… “Deite-se, irmã, eu trabalho”.

Ela não entendeu. E ele tornou-se ansioso…

“Não houve uma ofensa sanghadisesa, séria e que envolve a suspensão, mas sim uma ofensa dukkata, de transgressão.”

A terceira regra de treinamento sanghadisesa, sobre a fala lasciva, abusiva ou obscena, se encerra aqui.